por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 5 de Dezembro de 2007, às 15:32
Ando lendo demais. Estou ficando burro. Schopenhauer tinha razão. Meu caso é o mesmo daqueles eruditos alemães que ele tanto achincalhava em 1851. Aqueles que liam o dia todo, mas passavam os intervalos sem pensar nada. Aqueles que “leram até ficarem burros”. Se eu morresse hoje, o Andreazza poderia escrever na minha lápide: “Felipe Moura Brasil, um tribuneiro. Leu até ficar burro”.
Estou intelectualmente broxa. Dias e dias sem dar umazinha no papel. Andei lendo, lendo e lendo, como se o voyeurismo pudesse me ativar a imaginação. Como se Lula, Chávez, Correa, Morales e Putin pudessem me despertar os instintos menos primitivos. Nada. Nem meia-bomba. Consolo-me, pois, com Montaigne. Lá em 1572, ele já consolava os broxas.
Montaigne dizia não haver uma única parte do nosso corpo que freqüentemente não se negue à nossa vontade ou trabalhe contra ela. Duvidava até do poder dos peidorreiros voluntários, salientando que nem mesmo o traseiro era sempre obediente. Com isso, eximia de culpa o “membro”. E aconselhava seu dono a “esperar qualquer outra oportunidade mais íntima e menos ruidosa”.
Eu sigo os conselhos de Montaigne. Aguardo a intimidade e o silêncio. Penso, contudo, se não seria melhor andar por aí cuspindo fatos e estatísticas colhidos em minhas leituras. O mercado, decerto, me acolheria mais depressa. Para cada Gérson, há dois ou três Mauro Beting. Para cada Paulo Francis, dois ou três milhões de Rubens Ewald. Para cada Montaigne, dois ou três bilhões de blogueiros miguxos.
Pensar é uma senhora perda de tempo e de dinheiro. Passe cinco minutos pensando e alguém perguntará se aconteceu alguma coisa. Antigamente eu disfarçava. Disfarçar o pensamento é uma arte. Como tirar remela para ajeitar o cabelo no espelho. Só que mais difícil. Você precisa dar a impressão de que está realmente ocupado com alguma atividade mundana – como comer gelatina - para passar despercebido. Eu enjoei de gelatina. Por isso não penso mais. Só leio, leio e leio.
Pode parecer um acinte, uma covardia, uma arrogância, admitir isso num país cujos estudantes acabam de tirar o 49º lugar (entre 57) numa prova mundial de compreensão de texto. Ora, é justamente o contrário. Como não posso me desalfabetizar, meu objetivo agora é emburrecer pelo excesso de leitura. Todo dia, portanto, dedico-me à CPMF, à cooptação de deputados e senadores, a negligências criminosas em delegacias e estádios de futebol, a renúncias e demolições redentoras, à simpatia a ditaduras, ao “isentismo” da TV Pública, à distribuição de petistas por estatais e demais tópicos do governo lulista.
Eu nunca pensei que a inteligência e a vergonha na cara eram grandezas diretamente relacionadas. Mas suspeito que o cansaço de uma já tenha começado a prejudicar-me a sobrevida da outra. Estou quase acreditando que a prorrogação da CPMF é boa, que a TV Pública será imparcial, que o PT merece fidelidade partidária e que Che foi um assassino cheiroso e bonzinho. Estou quase me tornando um Verissimo. Só falta trocar o pandeiro pelo saxofone. Ainda não sei se o excesso de leitura prevê tamanha decadência.
Outro dia eu disse aqui que seria um final digno, neste mundo de gênios, ser enterrado por um chimpanzé. Já encontrei o meu. Chama-se Ayumu. Ele acaba de vencer, no Japão, nove universitários num teste de memória. Acertou 80%, contra os 40%, em média, dos humanos. Que nem eram brasileiros. Já avisei ao Andreazza que, ao menor sinal de Ayumu, ele pode escrever à caneta: “Felipe Moura Brasil, um tribuneiro. Leu até ficar burro”. O hino e a bandeira, eu dispenso.


deixe seu recado