por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 28 de Novembro de 2007, às 15:33
- Mas, pai, como é que eles sabem tudo do mundo?
Televisão ligada no Jornal Nacional.
- Eles estão lendo, meu filho.
- Como, se eles estão olhando pra gente?
- Eles estão lendo na câmera.
- Mas de que tamanho é a câmera?
O pai abre os braços.
- E cabe tudo que eles estão falando nesse tamanho?
- É um computador. As letrinhas vão descendo.
- É uma câmera ou é um computador?
- Os dois.
O filho analisa o Jornal Nacional.
- Mas, pai, se eles estão lendo, você também podia ler, né?
- Não, meu filho.
- Você não sabe ler, pai?
- Sei, mas não na televisão.
- Qual é a diferença?
- É mais difícil.
Comerciais.
- Pai, compra um computador-câmera pra mim?
- Você quer trabalhar na televisão, filho?
- Eu quero saber tudo do mundo. É muito caro?
- Mais ou menos. Mas não vem com tudo do mundo.
- Como assim?
- Alguém precisa escrever o que você vai ler.
- Você não sabe escrever?
- Sei, mas não pra televisão. Não tudo do mundo.
- E quem sabe tudo do mundo?
- Um monte de gente.
- Um monte de gente, e você não?
- Não, um monte de gente junta.
- Ninguém sabe tudo do mundo sozinho?
- Ninguém.
- Nem eles que estão lendo?
- Muito menos eles.
Volta o Jornal Nacional.
- Onde está quem escreveu o que eles estão lendo?
- A maioria não aparece.
- E pode isso? Ficar lendo as coisas dos outros?
- Pode.
- Eles não ficam bravos?
- É o trabalho deles.
- Qual é a graça de saber tudo do mundo e ficar escondido?
- Não sei.
O filho levanta, pega um livro da estante.
- Quem escreveu isso?
- Shakespeare.
- Você conhece?
- Só de foto.
- Mas nunca viu ele falando?
- Nunca.
- Nem na rua?
- Nem na rua.
- E ele sabe muita coisa?
- Muita.
- Por que ele fica escondido, então?
- Pra poder escrever.
- Não é chato?
- É o trabalho dele.
O filho olha o Jornal Nacional. Olha Shakespeare. Alterna entre os dois.
- Ele não escreve pro computador-câmera?
Ele é Shakespeare.
- Não.
- Ninguém lê isso na televisão?
Isso é Hamlet.
- Não.
- Onde se lê isso?
- No livro ou no teatro.
- Teatro?
- É como na televisão, só que quem lê está na nossa frente, de verdade.
- Sem computador-câmera?
- Sem.
- Eles levam o livro na mão?
- Eles guardam tudo na cabeça.
O filho folheia Hamlet.
- Tudo isso?
- Tudinho.
- Então teatro é mais difícil que televisão?
- Talvez… É diferente.
Comerciais.
- Mas, pai, quem sabe mais do mundo: quem escreve pro computador-câmera ou ele?
Ele é Shakespeare.
- Ele, meu filho.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Então por que estamos vendo televisão?
- Não sei. Quer que eu leia pra você?
- Quero.
O pai desliga a televisão. Começa a ler Shakespeare.
- Você erra muito, pai!
- Faz tempo que não leio Shakespeare.
- Não entendi nada.
- Aos poucos, você entende.
O pai continua lendo. O filho dorme parcialmente.
Sonha que está na televisão. O computador-câmera é o livro de Shakespeare. Ele apresenta o Jornal Nacional. O Jornal Nacional é Hamlet. Sua voz é a de seu pai.
O pai erra. Ele acorda.
- Quem escreve também erra, pai?
- Erra, filho, mas tem tempo pra corrigir. Mesmo assim, erra.
- Ele erra?
Ele é Shakespeare.
- Nunca notei, filho. Por quê?
- Eu quero saber tudo do mundo e ter tempo pra corrigir.
- Você quer ser escritor?
- Não sei. Tenho que ficar escondido?
- Não sei.
O pai volta a ler. O filho volta a sonhar. Agora é Shakespeare. Está escondido atrás do computador-câmera. O Jornal Nacional é Hamlet. Segundo ato. Os apresentadores têm a voz de seu pai.
O pai engata na leitura. Os apresentadores não erram. O filho vai ficando mais à vontade. Sente menos frio. Os apresentadores dizem boa noite. Acaba o Jornal Nacional. Os apresentadores lhe dão um beijo na testa. Vão embora.
Shakespeare acorda de manhã.


Quarta-Feira, 28 de Novembro de 2007, às 09:40
Texto apaixonante!!!