por C.A. - Terca-Feira, 27 de Novembro de 2007, às 10:47
Fui assaltado ontem – pela primeira vez. Porquanto, acho, já me possa considerar um carioca. E mão armada – para qu´a cousa não deixasse dúvidas. Queixa, porém, não prestei. É tênue o limite, eu sei, mas sou carioca – e não estatística.
(É curiosa a visão duma arma apontada contra si). (Parece de brinquedo). (Suponho que se trate d´algum recurso mental d´atenuar o pavor). (O resto vai a expensas do tempo). (É tudo tão rápido que se dá e se evapora num recorte de realidade ínfimo, bem antes de se poder firmar a solidez do medo, como se ao redor tudo restasse em suspensão e a ação se desenrolasse numa zona residual abaixo da mínima medida de tempo, num intervalo sem tato, sob ritmo d´apreensão desconhecido, de captação impossível)… (O sujeito veio correndo, imaginei que para me ultrapassar, mas então emparelhou comigo e me fez ver a pistola). (Quando me dei conta, afinal, ele já ia longe, sumido na sombra impune qu´esta cidade é).
Roubou-me o cordão de meu pai. Também, aí, ao menos um roubo coerente: se me levaram o pai, nada mais lógico que me levassem o cordão que foi dele. (Efeito retardado – chama-se).
Assaltou-me um homem talvez entrado nos quarenta. A vida dele dificilmente escapará de se definir numa palavra: miserável. Não lhe tenho, portanto, raiva – e tampouco penso qu´a hora dele vá chegar etc.. É mais provável qu´a hora dele o seja desde que nasceu. E pouco me importa qu´o cordão valesse dinheiro. (Dinheiro vai e, espero, vem). Sinto apenas um incômodo [um vazio] de não lhe poder vestir num filho.
Talvez seja melhor assim. Só os filhos do governador podem usar jóias no Rio de Janeiro com segurança – o que me fizeram ver, no caminho de volta [distantes não mais que quinhentos metros d´onde fui assaltado], as três patrulhas e os doze policiais parados rua dos Cabral.
Talvez seja melhor assim. Poderia ser pior… Eu poderia ter reagido e, em vez da dignidade duma morte bala, morrido atropelado por um ônibus ou, carioca da gema, por uma van.
Seria a suprema humilhação – não?


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