por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2007, às 15:49
Para combater o câncer e a violência contra as mulheres, nada melhor do que tirar a roupa. Foi o que fizeram 11 policiais da sintomática cidadezinha de Pinto, parente discreta de Pau Grande, a 20 quilômetros de Madri. O calendário com as fotos - 11 individuais e uma coletiva - custa 7 euros e teve tiragem de 2 mil exemplares. A leitora interessada deve correr: já foram vendidos 1.100.
O agente Arturo López, idealizador do projeto, além de arrecadar fundos e frentes para causas nobres, também queria mudar a imagem - repressiva - da polícia local. Parece que conseguiu. Agora, quando um policial de Pinto na rua manda um carro avançar o sinal, as mocinhas gritam: “Obrigado, setembro!”, “Valeu, outubro!”, “Dá-lhe, novembro!”. Ninguém nunca viu Pinto tão alegre quanto nos últimos dias.
Desde 1999, quando senhoras inglesas, de uma instituição de donas-de-casa da pequena Rylstone, em North Yorkshire, posaram nuas para ajudar criancinhas com doenças terminais, e acabaram inspirando o filme Garotas do calendário, com Helen Mirren, virou moda a nudez beneficente. Se você não está a fim de adotar uma negrinha da Etiópia, por que não fazer um bundalelê por ela? É válido. O bundalelê é uma manifestação legítima de solidariedade ou protesto.
O chato da greve de roteiristas de Hollywood – que eu, como gerador de conteúdo, endosso feliz da vida aqui do meu sofá - é que ninguém abaixa as calças para exigir um aumento. Protesto de rico não tem a menor graça. Antigamente eles ainda escreviam On Strike com pilot e pintavam as letrinhas com carandache. Hoje mandam fazer camisas, cartazes, bonés, bolsas e balões em agências de moda e design, e saem rua sorrindo para os fotógrafos. O estilo grevista promete arrasar no próximo verão. Há uma porção de atores entrando na roda só para ganhar os brindes.
No último Prêmio Contigo! (assim mesmo, com exclamação teen), Ney Latorraca - felizmente vestido - protestou: “Eu vi todas as peças premiadas, mas temos um presidente que nunca foi ao teatro”. Como se num país com 50 mil assassinatos por ano, o presidente tivesse que reservar uma noite para ver, de celular desligado, um musical do Miguel Falabella. É curioso. Latorraca lamentou aquela que é provavelmente a única grande virtude de Lula: sua completa indiferença em relação ao teatro nacional. Aqui, como se sabe, se os dramaturgos entrassem em greve, ninguém sentiria falta.
O grande problema da indiferença de Lula, como sempre, é que ela pesa no nosso bolso. O governo, através da Lei Rouanet, de incentivos fiscais, destinou cerca de R$ 2 bilhões a projetos culturais entre 2002 e 2006. O número tende a aumentar, mas o leitor não se preocupe. Como Gilberto Gil, por problemas vocais, anunciou sua saída do Ministério, já estou aquecendo minhas cordas para assumir em 2008. Vou disputar a vaga com o cantor Frank Aguiar, aquele do morango do nordeste. Moleza. Dou uma cabeça de vantagem.
Meu principal projeto é tornar a cultura brasileira auto-sustentável, o que significa desvinculá-la do governo. Para isso, vou criar um sindicato tão forte quanto o de Hollywood. Como? Simples. Cobrirei de impostos todos os atores e atrizes que posarem nus. Parcialmente nus, também. Pelo menos 50% de seus cachês serão recolhidos pelo sindicato para serem reinvestidos em filmes, peças e exposições. Adivinhe quem vem para rezar, uma das últimas peças com Paulo Autran, foi orçada em R$ 500 mil. Como não há motivo para Falabella algum precisar de mais dinheiro que um Paulo Autran, o teto é este. Eu estabeleci.
Estima-se que a Playboy pagou R$ 300 mil para Mônica Veloso, 500 para Karina Bacchi, 700 para Grazi Massafera, e mais ainda para a ex-BBB Íris. De acordo com as leis do sindicato, portanto, com duas Karinas Bacchi se monta um Paulo Autran. Com uma Grazi e uma Mônica, meia sala multiplex. Com uma Íris, quem sabe os créditos de Tropa de Elite, embora sem os nomes dos dublês. É válido fazer um pool de atrizes, desde que não se ultrapasse o teto estabelecido. Toda nudez beneficente, via calendário ou G-Megazine, também será bem-vinda.
Meu objetivo é desinflacionar os custos absolutamente inviáveis da arte verde-amarela e inflacionar os cachês absolutamente pagáveis dos artistas nus. Se ninguém quiser fazer mais nada, ótimo: voltaremos aos tempos em que os atores atuavam e o governo se preocupava com saúde, educação e segurança. Segundo meus cálculos, porém, em meio mandato os números vão se equiparar. Haverá greves, claro, mas a tendência é que passem despercebidas: se os artistas protestarem tirando as roupas em público, de graça, estarão dando um tiro no próprio pé.
Eu pensei em tudo. Viva o morango do sudeste. A cultura brasileira, finalmente, será financiada por aquilo que sabe produzir de melhor: bundas.


Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2007, às 11:28
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