por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 30 de Outubro de 2007, às 15:50
Souza, atacante do Flamengo, comemorou um gol como se estivesse disparando tiros com os dedos. Foi acusado de fazer apologia violência. Ele se disse um “matador do bem”, mas Kleber Leite garantiu que, “daqui para frente, [o gesto] vai ser a pombinha da paz”. Está certo. Viva a censura. Um jogador de futebol, mesmo medíocre, tem essa desvantagem de ser ídolo de uma porção de criancinhas, e deve mesmo tomar cuidado com o que faz dentro de campo. Se Zico comemorasse seus gols fingindo fumar um baseado, tenho certeza de que eu estaria agora no Posto 9. Ou no Circo Voador. Ou na Fundição Progresso. Ou na rave de Itaboraí.
A facilidade com que atletas profissionais hoje mudam de time dá a entender que são todos personagens vestindo o figurino do clube da vez. Não são. (O presidente da Rússia, Vladimir Putin, aliás, na ânsia de investir na prata da casa, foi constatar mais ou menos isso e acabou tachado de racista por todos os jornais: “Olhando para nossas equipes, pode haver quem não compreenda imediatamente que elas são nossas e não um time da África”. Mas onde está o racismo de Putin? É o mesmo caso do funcionário americano do Pan que escreveu “Welcome to Congo” no Rio e foi demitido. A Rússia não tem muitos brancos? A África não tem muitos negros? O Congo não é muito quente? É curioso como qualquer alusão ao continente africano virou xingamento. Um dia os americanos voltam a chamar afro-descendente de crioulo. Vai pegar melhor).
Mas eu dizia que um jogador não é personagem. Muito menos depois de um gol. Um jogador, mesmo dentro de campo, não é o Capitão Nascimento. É, no máximo, um Harry Potter. Se quiser fazer alguma bobagem em ação, é melhor sair de Hogwarts. Foi o caso de Daniel Radcliffe, o ator que interpreta o bruxinho. Em seu novo filme, Um verão para toda a vida, ele fuma, bebe, fode e faz bundalelê. As criancinhas estranharam, claro, mas estão cientes de que é tudo ficção. Radcliffe, além do mais, já tinha tirado a roupa no teatro.
As apologias violência, droga e bebida (esta, como Romário cansou de fazer com o número 1 nas mãos) deviam ser tão proibidas nos campos de futebol quanto o proselitismo religioso. Os alemães punem os jogadores que fazem propaganda de deus – qualquer deus - nas camisas. Os alemães, recentemente, também ameaçaram vetar Tom Cruise de filmar no país só porque ele é adepto da cientologia. Os alemães são um ótimo exemplo a ser seguido pelo Brasil de Edir Macedo, Júlio Lancelotti e Garotinho. Eles não gostam de religiões agressivas na arregimentação de fiéis. Esse papo de laico tem limites por lá. Faço fé de que Kaká vá jogar no futebol alemão.
Eu temo pelas criancinhas que se espelham nos ídolos de hoje, porque anda cada vez mais difícil separar o artista e a obra, a vida pessoal e a vida pública, a comemoração e o gol. Assim como a cortiça virou álbum, e os pôsteres, comunidades, os quartos dos famosos também vieram tona, e há coisas sobre os ídolos que é melhor só descobrir depois de velho. Ou – no mundo ideal - não descobrir. Alguns dos meus foram uma decepção tão grande que achei melhor não saber dos outros. Stallone foi detido na Austrália com supostos anabolizantes. Van Damme admitiu problemas com drogas. Steven Seagal virou um guitarrista obeso. Bruce Lee morreu cedo, virou mito e há que se desconfiar dos mitos. Schwarzenegger confessou que se dopava, apareceu num documentário fumando um baseado, e disse esta semana que maconha não é droga, é uma folha. Ainda bem que papai não me contou isso tudo antes.
Aguardo ansiosamente a retratação de Souza e do Flamengo, aquele time que mais parece da África. Só acho meio gay esse negócio de pombinha da paz.


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