por Bruna Demaison - Segunda-Feira, 29 de Outubro de 2007, às 15:51
– Hoje descobri que meu rim esquerdo é maior do que o direito, isso já aconteceu antes. Não com o rim, mas com meus pés. Queda de barreira também é completamente déj vu, lembra do Carnaval de 88? A serra de Petrópolis desabou e eu fiquei indignada, tinha dez anos, mas já ficava indignada. Ainda por cima os turcos vão invadir os curdos, a gasolina vai aumentar, o túnel desabou e minha vida engarrafou, não tem retorno. O professor passou a aula inteira filosofando sobre o Eterno Retorno e eu sei muito bem o que é eterno retorno porque estou namorando meu primeiro namorado de novo, e o segundo e o terceiro também.
Durante quinze minutos ela falou sem pausa sentada na beirada da cama. Só parou porque, entre curdos e Nietzsche, aquela informação era a mais inusitada:
– Namorando os três ao mesmo tempo?
– Outra vez o mesmo, estou sempre envolvida com a mesma pessoa, ele é um só e se disfarça.
Eram cinco da manhã, chovia há mais de vinte e quatro horas e o silêncio permitido pelo não funcionamento do Rebouças foi interrompido por aquela enxurrada de pensamentos enlouquecedores.
– Não acredito que eu esteja aqui novamente: agindo no trabalho como no meu primeiro estágio, repetindo diálogos com pessoas que deveriam ter chegado com um lacre – cuidado, perigo. Em breve vou reclamar que meus pais não me deixam voltar tarde para casa. Vou evitar passar a quinta por medo de reduzir já que marchas de carro são mal-feitas. E a história de que aprendemos com os nossos erros? Na mais poliana das hipóteses, aprendi a identificá-los, agora sei me ver na correnteza e pensar – uhu, olha eu indo para o buraco! Que progresso.
– Lê essa reportagem: uns cientistas descobriram a área do cérebro relacionada ao otimismo. Quando pensamos em situações alegres aumentamos a atividade cerebral no córtex anterior cingulado e na amígdala. Você só precisa estimular essas regiões, imaginar coisas legais. É o segredo.
– A minha amígdala fica na garganta.
– É uma fase ruim, acontece com todo mundo e a humanidade segue com predisposição a esperar por acontecimentos positivos mesmo sem nenhuma evidência quanto a isso. Melhora. Vai passar.
– Quando chegar meu futuro ele será uma repetição do meu presente que é uma zorra igual ao meu passado. Nada me leva a crer que amanhã vou ter atitudes diferentes. Não faço de propósito, só sei fazer assim. Sou o exemplo encarnado da não-evolução da raça, se dependesse de mim ainda estaríamos desenhando em cavernas.
Ela olhou para o relógio, faltavam poucas horas para o despertador tocar. Estava exausta. Aqueles otimistas no jornal pareciam viver a calma dos ignorantes. Decidiu que amanhã pensaria em como romper o ciclo, hoje só iria chorar um pouco.
Quem descobrir a cura para a insônia ganhará sua eterna gratidão.


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