por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 11 de Outubro de 2007, às 12:12
Começou com as senhas: esqueci todas. Bloqueei o primeiro cartão, depois o segundo, travei o computador e, antes que esquecesse meu nome, corri para o banco para provar que eu era eu mesma, aquela que abriu a conta, ganhou o dinheiro, colocou lá e agora precisava dele. O número da conta? Calma. São quantos dígitos? Meu CPF… Onde coloquei a identidade que estava na minha mão? Não acreditaram que eu fosse eu. Nem eu.
Outro dia descobri o I Used to Believe, um site sobre coisas engraçadas nas quais acreditávamos quando éramos crianças: “as próximas páginas vão mostrar que o que você jurava ser verdade nem era tão bizarro assim”. Os artistas estão dentro da TV, adultos conseguem tirar seu nariz da cara, as professoras vivem nas escolas. Minha irmã mais nova tinha certeza de que um dia seria mais velha do que eu. Eu achava o máximo gente sem tempo. Coisa mais linda era pessoa ocupadíssima! Hoje não avisei corretora que não vou comprar o apartamento porque não tenho dinheiro, esqueci porque estava trabalhando muito para lembrar, mas talvez não o suficiente para ganhar dinheiro e ter um apartamento. Eu tinha certeza que os adultos que trabalhavam muito ganhavam dinheiro. Estresse era frescura, crise histérica era crise histérica, coisa obviamente de maluco porque nem dentro do quarto com a luz apagada devemos perder as estribeiras. Amnésia era doença de velho. Quase trinta era velho. Eu estava certa em alguma coisa.
Eu acreditava que jogo de cintura devia ter a ver com bambolê, não com sobrevivência. Depois passei a achar que mudar de idéia era coisa de gente sem opinião, até mudar de opinião e associar a algo como amadurecimento. Isso foi há bem pouco tempo, quando eu ainda dividia o mundo em pessoas boas e más. Nunca fui daltônica, mas se o preto não fosse preto só poderia ser branco, não me viessem com desculpinha de cinza. Coisa de quem achava que pais sempre teriam a solução, amigos estariam seeeempre ali e amores… que amores? Um só amor te amaria incondicionalmente, para sempre. Não cantaram que a gente se fala no olhar? Não sabia que meu olhar s vezes ficaria rouco e nada aconteceria.
Outro dia descobri o “Acredite se Quiser”, uma brincadeira que faz mais sentido com o tempo. Remédio para dormir não é glamouroso. Para voltar atrás é preciso ter ido. “Não” é uma palavra salvadora. Óbvio é muito subjetivo. O que não é dito não é ouvido. Você vai se decepcionar. Você vai se encantar. Gente ocupadíssima não consegue ter hobbies. Antibiótico para gastrite pode ser pior do que a doença. Você só vai ter vinte e poucos anos por mais alguns meses. A previsão para o feriado é de tempo bom. Nem isso é uma certeza. Se chover, improvisa e aproveita.


deixe seu recado