por C.A. - Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2007, às 11:01
Ouço com muito bons ouvidos o novo disco – Samba meu – de Maria Rita. A cada vez, gosto mais – e isto talvez porque, lendo mais que por simples título o nome da obra, logo compreendi que se trata não de trabalho com pretensões revolucionárias, coisa conceitual, que lançaria novos compositores etc., essas babaquices d´agradar crítico, mas antes, bem antes, dum disco de samba típico [com Gordinho no surdo, ora], íntimo como sói a ser [a cuíca de Ovídio Brito], absolutamente pessoal, qu´assim se desejava, com base tradicional para, nela e a partir d´ela, desenvolver-se [no sete-cordas de Carlinhos, no cavaquinho de Alceu Maia], ao mesmo tempo reverente, porque pede passagem, licença [na primeira canção, “Samba meu”, de Rodrigo Bittencourt], e afetivo, porque não esconde a gratidão, a admiração, o envolvimento, em que a cantora, ousando, desafiando-se, em vez de se acomodar ao habitual de canções criadas para si, sob medida, preferiu moldar-se ela aos compositores, ao estilo de criação dos sambistas, esmerando-se – poucas vezes sem sucesso, diga-se – em aperfeiçoar a divisão, em reinventar o tão próprio timbre, em encaixar a voz nos sambas daqueles que mais a interessaram, instigaram, despertaram, o que resulta num disco consistente� do começo ao fim, não raro desaguando em momentos de brilho e emoção.
E quem dirá que, assim, deste jeito, vá-lá, intimista [apesar da bagunça de Nenê Brown � cozinha], interno, honesto, sobretudo maduro – quem dirá que não se trata de disco revolucionário na porção em qu´importa o ser, qual seja, revolucionário para a carreira de Maria Rita, outrora excessivamente artificial, preocupada em deslumbrar e conquistar pop-críticos, sofisticados hermanos de pilotis, pautas do fantástico e o escambau d´atitude a quatro, agora dando passo importante na direção dum futuro, senão essencialmente popular, festivo, humano, aberto, público, franco, múltiplo, � s vezes moleque, isto que vem carnavalescamente cantado no samba d´embalo, “O homem falou”, pescado no repertório de Gonzaguinha e defendido ao lado da Velha Guarda da Mangueira, bela, belíssima surpresa.
(Sem negligenciar o que lhe ficou de marca e característica musical dos dois trabalhos anteriores, Maria Rita, muito sólida e sabiamente, manteve, em todas as canções, a estrutura básica de piano e baixo acústico – algo que nos sugere uma cantora que se conhece e que possui, d´algum modo, noção de qu´uma carreira se constrói também no diálogo dos passos, por mínimo que seja, na costura auto-referente de disco após disco).
Li e ouvi várias críticas negativas, algumas bem fundamentadas, a propósito dos seis sambas d´Arlindo Cruz num conjunto de catorze faixas. Mas fazer o quê? É, repito, a proposta do disco. Uma opção – na qual vejo mérito e coerência. (E será que esta crítica seria feita se as mesmas canções fossem gravadas pela Beth Carvalho, por exemplo)? Como supra-escrito, Samba meu é obra pessoal, afetiva, reverente, orgânica, interna mas generosa, íntima mas atraente, fechada em si para se abrir com firmeza, assim naturalmente concebida em torno de compositores da confiança de Maria Rita e do produtor Leandro Sapucahy, não só Arlindo Cruz, mas com ele, sim, em destaque – e alguém dirá qu´imerecido? (O mesmo argumento, adaptado, servirá para defender os arranjos, quase sempre bons, todos de J. Moraes, a despeito de minha preferência por discos com dois ou três arranjadores).
Arlindo [em quem, por motivos imperianos, bato duro quando justo], é dos maiores compositores de samba de todos os tempos e das suas seis canções no disco, a não ser por “O que é o amor” [com Fred Camacho e Maurição, esta mala], de que não gosto e considero mesmo fraca, não conseguiria tirar uma só que fosse – e bem ao contrário. Respeito e valorizo a dolência de “Pra declarar minha saudade”, com Jr. Dom, bonita e elegante, quase uma carta cantada, embora me tenha passado por assaz singelo o seu arranjo. “Maltratar não é direito”, samba que remete a algo de Portela, a irresistível “Ta perdoado” [ambas só com o grande Franco], que vai crescendo, crescendo, crescendo (…), e a deliciosa, vem, vem!, “Num corpo só” [parceria com Picolé] são grandes momentos do disco – qu´oferecem avenida para o desfile da boa� cantora de samba que Maria Rita é. De “Trajetória” [com Franco e com o genial Serginho Meriti], lindíssima, recomendo a mais urgente das audições. O arranjo, que se anuncia discreto,� sobe aos poucos,� sempre na hora certa, com ênfase no piano de Tiago Costa,� enaltecendo a beleza dos versos� para, afinal, oferecer-nos um conjunto emocionante. Uma pérola. (O Pim diria que sambas d´Arlindo Cruz nunca são excessivos – no que tendo a concordar).
Autor também dum outro achado para este disco, o samba “Casa de Noca” [com Nei Jota Carlos e Élson do Pagode], Serginho Meriti, porém, em parceria com César Belieny, assina o, digamos, supérfluo “Cria”, cuja subtração não faria falta � obra. É samba – o único – com que Maria Rita não se encontra. Da mesma forma, d´Edu Krieger, compositor da candente e sincopada “Maria do Socorro”, um dos pontos altos de Samba meu, não seria dos mais necessários o choro “Novo amor” – e isto, admito, com todo respeito pela participação do grupo Galo Preto, simplesmente por ser um choro, chato como todo choro sempre é, daí porque desvalorizando, sub-aproveitando, as possibilidades vocais de Maria Rita, o que, ademais, com sobras, ela nos fará esquecer, secundada pelo cavaquinho de Márcio Hulk, na soberba interpretação para “Mente ao meu coração” [F. Malfitano], samba presente no clássico disco Memórias cantando, de Paulinho da Viola, e na saborosa “Corpitcho” [Picolé e Ronaldo Barcellos], que� permanece na cabeça e que, toda malandreada, explora e exibe a divisão sambística surpreendente e inegável de que Maria Rita é capaz.
Por falta – nada grave, entre tantos acertos –, apenas a dum samba-enredo antigo e dum partido-alto, duas modalidades sambísticas de testar e valorizar o cantor de samba, qualquer um que seja. Fica, como gostinho na boca, para o próximo – mas desde que não tarde.


Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2007, às 10:27
Uai, companheiro….
Não foi aqui, por acaso, q li, um tempo atrás uma crítica feróz à Maria Rita, dizendo q ela estudou foi marketing nos EUA e q tudo faz para imitar a mãe? Gostei demais da argumentação à época e agora não encontrei o artigo para comparar….
Saiu do ar?
Mudou a opinião?
Abraços!!!