por Bruna Demaison - Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2007, às 12:27
Não era cidade de interior, mas o personagem melhor caberia em tal cenário: jovem, esportista, bebedor de seus chopinhos, o padreco revezava a Bíblia e a prancha de surfe debaixo dos braços. (Finge que no interior tem mar). Ia vez ou outra ao colégio, convite da senhora diretora, conversar com os alunos de quem era poucos anos mais velho. As meninas só não encompridavam mais seus olhares para ele porque – benza, Deus – o garoto era padre. Virou quase um superstar naquela comunidade, com direito a toda exposição que convém em uma cidade do interior: destaques em jornais, reportagens na TV, igreja lotada. Fosse eu católica, ele seria um marco na minha juventude. Como não sou, ficou um personagem interessante. Mais interessante tornou-se há pouco, quando largou a batina por outras saias – maldade, uma saia específica. Segue com a prancha de surfe, os chopinhos e Deus no coração.
Há o caso inverso – do moço que foi trocado por Deus. A parte do casal mais moderninha achava curioso como se aceitou bem naquela família religiosíssima a questão da homossexualidade. A presença de crucifixos na indumentária do parceiro não era por modismo, era devoção. A mãe, Dona Carola, tratava os dois por meninos, e vez ou outra ele temia a hora em que seria convidado para a missa de domingo cedo. Não deu tempo – um dia, no meio de muitos amassos e amores, o namorado disse que estava sem tempo para Ele, e que o melhor seria terminar. Ele com letra maiúscula, não o ele bofe. O abandonado ainda tentou argumentar que, se necessário, poderiam ir tal missa cedinho, mas não foi suficiente. O garoto se sentia distante de Deus, e preferiu ficar distante daquele deus – o pecado da carne encarnado.
E com Ele envolvido em tanto trelelê, noiva e noivo se beijaram no altar da Nossa Senhora do Bonsucesso diante do olhar comovido e pés já doendo dos convidados, ao que o padre anunciou: ide em paz, e uma boa notícia para as encalhadas – agora tem festa! A mãe que tanto insistiu na primeira comunhão da filha porque é preciso buscar conforto na fé só teve tempo de pôr as mãos sobre os ombros da menina e das amigas e acalmá-las: vocês são jovens, vamos.
Por essas e outras é que não houve outra resposta possível quando na consulta, segunda-feira de manhã, endoscopia confirmando a gastrite nas mãos do médico, dieta alimentar prescrita cortando quase os pulsos da estressada, o doutor catequiza a moça dizendo ser inviável viver com aquele grau de ansiedade. Ela sabe, sente a explosão no estômago, e considera-se derrotada depois de tanta terapia, exercício físico, meditação e ohms. Ele sugere a salvação:
- Você acredita em Deus, minha filha?
- Não, senhor, eu acredito em Freud. Já tenho pela vida suficientes problemas de relacionamento, mas tenho fé nesse antibiótico!


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