por C.A. - Segunda-Feira, 3 de Setembro de 2007, às 11:20
Fará talvez quatro anos que não vou ao teatro. Possivelmente mais. Sinto-me vontade para falar a respeito. Desgosto e distância são infalíveis para um bom juízo.
Estudei Shakespeare por quase ano na escola, nos EUA, e embora tenha procurado com esperança, jamais o vi num palco senão pateticamente. Desisti. É um motivo. Não se atinge Shakespeare para além da leitura – estou convencido. O texto se resolve em si. É a lição. E assim o jovem William, o maior de todos, inutiliza o drama da busca, da encenação. Shakespeare é o nascimento e a morte do palco teatral como o conhecemos hoje. Ele dispensa intermediários… Quatrocentos anos d´insistência, todavia, parecem-me significativos da impossibilidade humana.
O teatro é uma experiência recorrente do ridículo coletivo. Do qual ninguém escapará. Duvido que o leitor, cercado de gargalhante platéia, já não se tenha pego a questionar – meu deus, do que riem essas pessoas? Pois bem: isto é a essência do teatro. Só o conforto de não se expor ridiculamente o explicará. Só o prazer de se julgar testemunha da miséria, mero espectador do patético, sem parte alguma porém, fundamenta o teatro. Só este alívio – pouco importa que falso – sustenta-o. Apenas o incômodo alheio, não mais qu´espelho, cicatriza e reconstitui.
(Admito, entretanto, que o teatro talvez sirva positivamente para fins terapêuticos)…
Da última vez, na cata dum Molière quiçá digno, fugi do teatro primeira fala de Tartufo. Jamais voltei. Sou dos que sentem vergonha d´outrem… Ocorreu-me depois se os maiores dramaturgos não teriam vindo ao mundo para humilhar os atores. É provável. Eles os levariam então ao precipício de se acreditar imprescindíveis… Só isto explicaria a insistência cênica. O texto dramático – o grande texto dramático – resolve-se na leitura, repito, na multiplicidade de possibilidades, a serem sempre reduzidas quanto mais numerosos forem os intérpretes, os intermediários, os atravessadores etc.. O resto é incompreensão profunda e/ou vaidade. (Não descarto, porém, a ingenuidade).
Sempre desqualifiquei os louvores s luzes, cenografia, s marcações no teatro. Estava errado. São sinais incontornáveis de que a encenação é medíocre, de que o texto é indigente, de que os atores são ainda piores que o habitual. Têm lá seu valor, portanto. Quanto mais sofisticadas as luzes, quanto mais rebuscados os cenários, mais evidente estará o reconhecimento dos produtores para a própria mediocridade. É uma confissão caríssima… O teatro, para sobreviver, exige que se valorize o supérfluo, que se destaque as bordas. O teatro é o milagre do vazio maquiado. Ainda assim, há uma franqueza, uma certa honestidade na iluminação a mais bonita.
Dizem que o exagero é teatral. É um equívoco. O exagero é literário. Encená-lo será redundância. Toda encenação, na melhor das hipóteses, será redundante. Todo o ensaio será superior. Todo o aplauso será formal e compulsório. Toda a crítica destrutiva será justa. Toda crítica positiva será insignificante. Apenas o ranger duma poltrona será definitivo.


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