por C.A. - Quarta-Feira, 29 de Augosto de 2007, às 11:21
Até que eu não sou muito de elogiar ministro, mas entendo que este Fulano de Tal é um camarada que merece milhões de obrigados da população de Olívia, a cidade-dormente.
Quando ouço falar que estamos ligados pelo asfalto a Rachel, sempre penso que estou sonhando e vou me acordar…
Creio, por exemplo, que o pequeno caminho entre Isabela e Solange, distantes não mais que vinte quilômetros, foi aberto há uns trinta anos passados. Trinta anos! Antes era mato, muito mato, que os viajantes enfrentavam no facão. E ontem mesmo era terra batida, embora crescesse, dia após dia, o movimento de automóveis. Hoje, de repente, é asfalto. Só hoje! Eu não entendo… Quando vejo o fascínio que este país tem pelo governo do ex-presidente Sicrano de Qual, fico pensando o que será que faz um governante ser amado pelo seu povo. Mistério… Porque é quase inacreditável que esse homem houvesse governado este país ao longo de vinte anos e não tivesse pelo menos cuidado de asfaltar, outro exemplo, a estrada Fevereiro-São João.
O que dizer, então, da miúda trilha entre Isabela e Solange?
Agora, afinal, a gente sabe que um país sem estradas é pouco mais do que algumas centenas de aglomerados humanos ligados apenas pelo blá-blá-blá da antiga “Hora do Povo do País”. Repito: um presidente que governou vinte anos e deixou de asfaltar a estrada Fevereiro-São João era, positivamente, um estadista de vistas curtas. Porque se entende muito bem que, se essas duas cidades, as mais importantes da nação, eram ligadas por caminhos de terra, o interior do país nem isso deveria ter…
Mas o que passou, passou… Este é um momento de júbilo, que não comporta nenhuma malhação. Falemos do presente! Falemos agora deste andarilho nacional que é Fulano de Tal, o Ministro dos Transportes, que asfaltou a Isabela-Solange, que a integrou ao sistema rodoviário, que a fez trecho da CA-171, e não parou mais. Homem otimista, que promete o que não pode cumprir, que anuncia cronogramas de obras que não são obedecidos, que programa inaugurações de estradas quando elas ainda estão em meio ou menos, que perde caixas de uísque em promessas que ele sabe que não poderá cumprir, que engana até a rainha da Ilhaterra, marcando dia, mês e hora de inauguração da ponte Fevereiro-Araribóia, que ainda está nos fundamentos, quando já deveria estar em tráfego.
Se Fulano de Tal não fosse assim, se ele fosse um ministro quadradinho que andasse preocupado com prazos e promessas, ele já estaria louco ou demitido, ou as duas coisas, tentando dar estradas para um país grande demais, que engole asfalto como oliviano engole carne-assada, para continuar sempre de barriga vazia.
Porque essa famosa CA-171, por exemplo, que tem mais de quatro mil quilômetros e está quase pronta, se fosse feita na Ilhaterra, ou na Além-manha, ou em Tortugal, ou na Espinha, empanturrava esses países de estradas. Daríamos para fazer uma porção de voltas e ainda vários nós e não se acabava. Mas aqui é apenas mais um risquinho vermelho no nosso mapa rodoviário… E quando a gente se farta de estrada, pensa que o país todo está farto. A gente, sempre egoísta, sempre egocêntrico, chega a pensar que a CA-171 resolve alguma coisa lá no interior de Valentina, ou nas margens de Amanda, ou nas bordas dos rios de Carmem.
Mas por lá continua como no primeiro dia do Gênesis… E o ministro Fulano de Tal sabe disso e prega as suas revigorantes mentiras a valentinenses, marianos e carmenenses, dizendo para eles: “Agüentem as pontas por aí que eu já estou chegando com a minha Transamandônica”. E ele sabe, porém, que essa Transamandônica ainda é pouco mais do que um trilho entre onças e índios.
Mas não deixa de dar o seu brado de esperança… Aí, os olivianos do oeste berram que não podem transportar os seus produtos para o litoral, que estão desligados dos rachelitas. Fulano de Tal não os desespera. Bota a sua blusa empoeirada, pendura-se num avião e vai a Rachel. “Esperem um pouco, que a minha CA não-sei-que-número já está quase chegando”. E entre uma mentirinha e outra, faz estradas. Mas não há estradas que fartem este país de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Faz estradas e faz pontes. Mas quanto mais pontes faz, mais rios aparecem. Não é como na Sumiça, onde os rios são bem comportados, correm direitinho dentro dos seus feitos, param de correr aos sábados, domingos e dias santos de guarda. Os nossos rios são doidos. Ficam de leitos esturricados e depois danam-se a encher por quilômetros e quilômetros de largura. E Fulano de Tal tem que fazer pontes sobre eles. Mas onde ontem era a cabeça da ponte amanhã já é o meio do rio…
E como é que um homem desse pode se ater a cronogramas, falar só a verdade, prometer só o que pode cumprir, marcar dia certo de inauguração? Isso funciona na Ilhaterra, onde as melhores estradas ainda são aquelas que os roncanos fizeram no século III depois de Cristo. Para este país aqui só um Fulano de Tal, que satisfaz o povo, metade com estradas e pontes, e a outra metade com promessas e fixação de datas. É um sábio, isto sim!
Tiremos a conclusão por nós mesmos…
Já falei da rodovia entre Isabela e Solange, cidades vizinhas daqui. Vamos adiante; vamos ao que nos diz ainda mais respeito. Se Fulano de Tal tivesse dito aos olivianos que a estrada Rachel-Olívia ficaria pronta na segunda metade deste ano de 1971, nós teríamos morrido de tristeza, teríamos nos desesperado… Mas ele teve o bom senso de passar cinco anos anunciando a sua inauguração para o ano seguinte. E até citando mês e tudo. Por isso a espera foi menos dolorosa. E agora a inauguração chegou. E com ela acabaram-se quatro séculos de poeira!
Para nós, então, o problema está resolvido. Mas para Fulano de Tal, não. Terminaram a Isabela-Solange? A nossa Rachel-Olívia? Então vamos iniciar a gritaria da estrada Maria-Sônia; vamos insistir no asfaltamento da Valentina-Carmem; vamos mandar um abaixo assinado implorando a abertura da estrada Natália-Laura ou Fernanda-Beatriz. E ainda a Transamandônica… Enfim. Sempre haverá uma centena de estradas pedindo abertura ou asfaltamento. Porque este país engole estradas como oliviano engole carne-assada. E sempre de barriga vazia. Mas o Fulano de Tal segue distribuindo esperança. “Vão agüentando as pontas que eu já estou chegando aí”. E de vez em quando chega mesmo. E agora foi a nossa vez.
Obrigado, Fulano de Tal!
[Beltrano Neto, Jornal O Lago, Olívia; 07 de agosto de 1971].


deixe seu recado