por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 29 de Augosto de 2007, às 12:31
Imagino a leitora nua. Nua qual se de seus desejos restassem no silêncio solitário da leitura tão somente os mais secretos, os pervertidos, castrados pelas convenções diárias de comportamento social, de cuja insatisfação resultante se alimenta sua dela imaginação na escuridão dum quarto isolado, dum ar livre privado, no clarão – mais que claridade - das palavras minhas – e só minhas.
Imagino a leitora, travesseiro entre as coxas, lambendo com os olhos o parágrafo primeiro, num sorriso escapado da sensualidade encarcerada, das salivas esquecidas ao vento ou engolidas por reflexo condicionado em sua rotina descabida e desprovida dum prazer onde tenham elas – as salivas – um fim mais digno – a pele, sempre a pele, a pele alheia, a pele minha, por fora e por dentro –, prevenção contra o sangue que, apesar delas – fodam-se elas -, virá.
Imagino a leitora ávida – de mim, claro, mas de si, sobretudo -, percorrendo estas e outras linhas qual se fossem elas seus víveres, sua última ceia, famélica mulher de saudades muitas, carências tantas e vazios outros onde só o toque meu alcança e preenche, e, enquanto preenche, enleva, assoberba, recrudesce todo o desvario com que fantasia, com que alucina, com que se sente infinitamente mais humana e feminina, até que as peles se separem – e depois, não menos.
Imagino a leitora beira da ponte, do prédio, da janela, do pico da montanha, na iminência do salto último antes do qual lhe pousam em mãos meus devaneios, e ela então desiste, desiste de vez, desiste de vez da vida e se atira tentação, tentativa, ao atentado ao seu pudor tão comedido ou tão gasto em lugares tantos que não o dele, quais sejam, na farsa, na imagem, na fogueira das vaidades em lugar d’outras fogueiras a que nunca se rendeu completa e perdidamente como agora sente em todos os lábios – e em minha direção - a libido mandar.
Imagino a leitora a me imaginar neste monitor, nesta folha impressa, nesta página de livro anos depois do dia em que escrevo, tateando as letras qual se pudesse contornar meu corpo pelos meus vocábulos, e eu me deixo contornar, manuseado como se frente duma cega gostosa que me quer conhecer as formas enquanto lhe contemplo as saliências, e, pressentindo o poder de seu tato sobre o leito, chupo-lhe os dedos e logo os punhos, até ela trazer a folha em vida aos seios, abraçada s frases recém-relidas, como se seus mamilos me deixasse então morder.
Imagino a leitora, dedos entre coxas, em cada dedo a saliva minha, em cada seio a marca minha, em cada pensamento o sussurro meu, em cada relutância o diabo meu, ela inteira já escravizada, já hipnotizada e, queira ou não, já dependente do escritor em cuja imaginação penetra e com cuja imaginação se deixa penetrar e se guiar e se rever e se revoltar e se fingir indiferente até que sua satisfação real ou fingida expire o prazo, o curto prazo, e ela assim me procure novamente, volte no afã de ser despida uma vez mais – e sempre mais - por este escritor detestável que, para seu vício, sua tara, sua insatisfação constante, molha todas as leitoras, mas só come uma.


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