por João Paulo Duarte - Segunda-Feira, 13 de Augosto de 2007, às 16:20
Negra cheia de curvas e rebolado, e de cabelos crespos curtos. Seios fartos de consistência referente aos vinte anos. O decote e o vestido tubinho preto. A onomatopéia dos tamancos subindo a terra batida do Morro da Favela. Tinha vindo com passadas estrepitosas desde a Gamboa. Ainda faltavam algumas horas pra tarde terminar. Beijou o pai no rosto. O velho nasceu na Bahia, durante a Guerra de Canudos – filho de um soldado com uma seguidora do Conselheiro -, e agora começou a enriquecer. Roupas novas bem cortadas, anéis e chapéu de feltro; aprendeu o jogo e o difundiu em Santo Cristo e na Gamboa.
Jurema voltou pra casa sozinha capengando com o rosto ensangüentado. Os moradores entravam nos barracos e espiavam curiosos atrás das cortinas. O vestido estava rasgado, mas não muito. José de Arimatéia disse que mataria quem fez uma coisa dessas com a filha. E podia mesmo.
Antônio cortava o couro enquanto Anna lavava algumas peças de roupas. O português de modos rudes venceu a pobreza da infância perdida na Europa e ganhou os primeiros trocados numa fazenda no fim de Niterói. Aprendeu o ofício de sapateiro com um ex-escravo que também trabalhava capinando. Há meses ele falava pra esposa não fazer esforço. O filho médico disse que essa moléstia era grave, o escarro vinha com muito sangue, ela estava muito magra… “Não, fio, trabaia mais. Não se preocupe”. Os dois mal sabiam escrever os próprios nomes, mas Antônio pagou a faculdade inteira, formou o filho doutor. Paulo chegou em casa e beijou a mãe, pediu a benção do pai a distância, depois o cumprimentou com um forte aperto de mão. Admiração, carinho e respeito.
Aurélio tinha sido espancado também.
No Bola Preta, Paulo aperta Jurema, agarra. Tão quente que o suor refresca. A canela, os tornozelos e os cotovelos dela excitam, o rebolado atordoa. Psicótico. Samba sem parar, mesmo amordaçada pela boca e sufocada de braços.
Um amigo disse que era certo: com endereço e hora, não tinha como não pegar. Dentro do carro, Aurélio e Jurema.
Antônio trocou dez pares de sapato por um revolver. E com José de Arimatéia esteve. Era já noite, a estupidez do português estava nas palavras gritadas – a honra a ser defendida também, o português entendia de honra. Não deu um tiro, mas vociferava a
ponto de babar; que soube que o filho havia sido ameaçado; que a vida do seu futuro estava por uma bala do bicheiro; que a vida dele não ia morrer. Os olhos lacrimejavam tamanha raiva na cara, contava-se as veias que corriam no rosto vermelho da pele curtida. José de Arimatéia não amava menos a filha. Saiu de casa armado também, mas nada falou. Encarou o sapateiro apenas, deu as costas. Entenderam-se.
Jurema apanhou mais, Paulo foi recomendado a casar logo com uma mulher direita. Antônio sabia que não se bate em mulher, José de Arimatéia sabia que filha de homem honrado não sai fornicando com todo o morro.
Três anos depois, Antônio foi atropelado por um ônibus na Presidente Vargas e morreu sendo carregado para o hospital. Sete anos depois morreu José de Arimatéia, foi traído por um comparsa. Paulo se casou oito anos depois, Jurema quatro anos depois. Trinta anos depois, Paulo procurou Jurema - que gostou muito. Uma noite apenas.


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