por C.A. - Terca-Feira, 7 de Augosto de 2007, às 11:25
Vem aí o dia dos pais. É data faustosa para o comércio, ocasião modelo também para um domingo clássico, qual seja, o de almoços os mais chatos. Nada cruel, porém. (Nada cruel para quem é Flamengo nesses domingos dos anos 2000)…
E, otimista, por que não?, de tudo isso escapo e escaparei sempre, ileso [e sem inveja, ora!], hoje como em vint´anos, ao menos dos gastos de bolso e de humor. (Este segundo dispêndio, porque de matéria s vezes faltante, muitíssimo mais caro – óbvio está).
Não poderei, contudo, negligenciar o irônico qu´esta sorte de data, com variantes e exceções, enseja: ao dia dos pais só dá valor quem pai não tem.
(No Natal, ho-ho-ho!, supra-sumo da cousa, penduro árvore luzezinhas de saudade, uma beleza, e papai, claro, a estrela lá do cume, insuperável há dezessete anos, mármore melhor no meu cemitério d´afetos).
Eu jamais me lembrarei dum dia dos pais vivido na companhia do meu. (Nem sei se tal data havia então)… Sem ele, entretanto, lembro-me de todos, talvez porque todos iguais, talvez porque mais recentes, talvez simplesmente porque reais, talvez porque também futuros – não sei. Decerto que já não sofro. Apenas acho a coisa toda muito cansada, aborrecida. Supérflua. Alheia.
Adquiri, a propósito, o hábito da memória [e não do sarcasmo], que se constrói e que se alimenta, sem dúvida. Acredito nisto. (Tenho fé de remover montanhas)! Cultivo-a para as horas d´inverno, d´aperto, e não só s minhas… De resto, pois que respeito o momento dos outros e preciso [devo mais que preciso] conviver, calo-me. E não penso qu´este sentimento [e a maneira d´encará-lo] um dia se alterará, embora, assim deseje, virá o tempo, o dos frutos, em que experimentará desafios, desenvolvimentos, desdobramentos da ausência, e serei, afinal, memória.
Serei pai, sim, mas qual será a graça? Que graça há num dia em que serei celebrado sem ter a quem celebrar? A memória… Espero tão-só me encontrar digno e altura de a um filho contar quem foi meu pai, o avô dele.
Quase tudo que há neste mundo descartável tem, ainda assim, mais idade que o tempo em que tive pai – em que fui filho dum pai que havia, concretamente – e tudo está sobretudo destinado a fazer deste tempo bebê. (Nani, por exemplo, cadela poodle da família, querida, finou-se ano passado, aos doze, a pobre, depois de cuspir-se em sangue, e esteve longe de privar com meu pai). Ontem – reflexão tipicamente alcoolizada [e não menos verdadeira por isso] –, bebi um uísque que tinha mais anos qu´aqueles nove em que tive pai. Não é fantástico? (Tudo está destinado ao mesmo fim, não?, mesmo que cercado de puxa-sacos, mesmo protegido em barris de carvalho, variando, com sorte, de pó a mijo). Não é curioso?
A vida é mesmo assim – dirão. E eu, filosófico: que merda.


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