por C.A. - Sexta-Feira, 27 de Julho de 2007, às 13:09
Escrevo enquanto escuto o disco ao vivo de Mart´nália, gravado em Berlim. Sempre a tive qual poderosa e atualíssima forma para o medíocre, aquela de caráter essencialmente pop, mais pose qu´estilo, mais na marra que no talento, mais filha [de Martinho] que mãe d´alguma criação.
Enganei-me – o que, bom, não configurará novidade.
A seu jeito, se me vou redundante, Mart´nália é singular. É muito Martinho, talvez na maneira de dividir o canto – mas não só. (O leitor já a viu no palco; já a viu gesticulando, pisando)? É Elza Soares também, na rouquidão da voz. E surpreende: vem num tom baixo, de nos sugerir o limite, e de repente sobe em afinada extensão. (Aí, nossa!, aí é enormemente Elza)…
Tenho outros três discos – d´estúdio estes – de Mart´nália. E acho que mais ela não gravou. Já saí do sério – e lhe maldisse o Ferreira do nome – com umas peças de seu repertório e, no entanto, mesmo quando escapou do samba, mesmo quando ainda escapa, quando brinca d´Ana Carolina, de Zélia Duncan etc., do samba não escapa. (Ou não lhe escapará ele – o samba)? E quem afinal dirá qu´ela – filha de Martinho da Vila, minha gente! – não precisava mesmo, para existir, dumas fugidas pra lá de Michael Jackson, de black-music e que-tais? De rap? Hip-hop? Quem?
Risco, a bem da verdade, não havia: Mart´nália, nascesse mil vezes, nasceria sambista. Ela agora, por exemplo, canta um daqueles bacanas e indefiníveis sons djavans – mas ali está uma sambista. (E uma sambista ali estaria cantasse Jim Morrison, sei lá). Mart´nália possui em si profundamente entranhado o samba – as origens do samba como o conhecemos hoje, e seu caminho, do rural ao urbano. Não se trata isto apenas duma conseqüência de berço – inevitável. Não. Vocação! O samba é vocação em Mart´nália.
Como as maiores cantoras do samba, toca violão, quiçá se arranhe num cavaco – não sei. Mas vai além – e aqui se aproxima d´Almir Guineto, o sambista completo: Mart´nália é percussionista, batuqueira mesmo, domina vários instrumentos de percussão, e é certo que os toca todos, o que lhe desenha o que de original, próprio, definitivo, traz na voz, no timbre, na divisão, o que ousarei chamar de canto percussivo, canto de couro, do couro, a voz encourada, couraçada, que se faz repinicar na respiração, no chacoalhar duns pandeiros, um reco-reco?, embora por fim se arredonde num quê de surdo, isso, surdo de terceira, de corte – surdo moleque.
A despeito de cantora inserida em seu tempo, Mart´nália cultiva firme consigo a tradição das escolas de samba, das quais, em parte compreensivelmente, os jovens sambistas se afastam ou tendem a se afastar. Mart´nália, não. Ela é Vila Isabel, freqüenta a Vila Isabel – agremiação a cuja ala de compositores pertence – e canta a Vila Isabel. Mas não só. Mart´nália tem o hábito – coisa natural, orgânica – de, ao cantar um samba, antes ou depois, sempre discorrer a propósito d´ele, falando de sua história, registrando nome e origem de seus compositores, de que escola vêm e por aí vai, com simplicidade, generosa, conjunto d´atitute [reverência] e consciência [referência] que reputo como d´elegância notável – isto que se vai a faltar amanhã já mais que hoje: elegância.
Isto, porém, sem o que sambista – à vera – não há.


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