por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 26 de Julho de 2007, às 12:34
Pior é quando já nem se discute mais. Quando o discurso do outro não lhe causa raiva, mas pena. Quando a dor de estômago que antecedia o berro passa a ser um aperto no peito, um olhar parado, uma voz que vai ficando longe e dando lugar a pensamentos borrados de azul. Acabou.
Não tem mais grito, não tem mais ódio, não tem mais jeito. O que quer que gerasse energia para mais uma tentativa sumiu, morreu. Quando aquilo ficou tão patético? Quando apareceu aquela vontade de dizer pára, se poupa, salva… o quê? Pesa. O olho fecha. A cabeça abaixa ignorando a presença da mão que a apóia.
Como era antes? Tinha uma briga para acertar, eram opiniões que iam de encontro por um objetivo único, havia um jeito certo onde você queria chegar e brigava por ele. Qual era ele? Por que esse sorriso complacente? Não era só ingenuidade, era mais!
Vai ver é só hoje, você está cansada, amanhã, cabeça fria, a disposição para consertar vai voltar. Mas como é consertar? É voltar a algum lugar? Tentar algo novo? Outro novo? Nunca existiu um novo, existiram tréguas, momentos bons, boa-vontade, vontade. O ruim estava sempre ali em uma iminente explosão e era vencido pela esperança. Aquela que é a última mas, surpresa, morre.
É um jeito, um hábito, uma omissão, uma teimosia, uma diferença, mas isso tudo não é contornável? Quando apareceu essa intransigência? Daqui não passa. E como é que faz? Cadê o ímpeto de sair batendo a porta? Não adianta, não é? Vai ter que voltar depois. Não existem soluções mágicas. Grandes mudanças exigem planejamento, você nunca foi impulsiva. Já! Logo que começou a gritar de volta era impulsiva, dizia tudo o que vinha. Antes você não gritava, lembra? Não era um silêncio como o de agora, era de aceitação, medo, inferioridade, um respeito de mão única que revelava uma pontinha de desejo de que você estivesse errada porque aí a questão não seria tão grave. Um dia o tão grave chegou, você reagiu e abriu uma nova fase com objetos voadores e olhares assustados. Eu não vou morrer de câncer, você justificava. E se esforçou. Para quê?
Não seja dramática, não foi nada em vão. Houve ótimos momentos, intermináveis tréguas, uma enorme vontade de estar bem de novo. Que acaba. Não diga que não era para ser: foi.
Fim.


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