por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 25 de Julho de 2007, às 12:38
Ele perdeu a mãe quando criança. O pai se casou novamente. A madrasta não lhe quer mal. Nem ele a ela. Ele trabalha na empresa do pai desde que se formou. Ele se formou sabendo que trabalharia na empresa do pai. Ele nunca pensou em trabalhar em outro lugar. O pai nunca cogitou que ele trabalhasse em outro lugar. (Existe outro lugar?) Ele é funcionário do pai. Não é diretor, nem vice-presidente. É apenas um funcionário. Ganha um pouco mais do que ganhava de mesada na adolescência.
Um amigo lhe indicou um curso de pós-graduação. Falou em “ampliar os horizontes”, em “reciclagem profissional”, em “conhecer novas pessoas”. Ele achou interessante. Seu salário: insuficiente. Pediu que o pai pagasse a matrícula e a mensalidade. O pai achou desinteressante. Nada acrescentaria empresa. Ele não questionou. O pai é seu patrão. Seu maior sonho é ocupar um cargo melhor dentro da empresa. Não gosta do que faz. De segunda a sexta, é infeliz em seu cargo. Não pensa em trabalhar em outro lugar. O pai nem cogita que ele trabalhe em outro lugar. (Existe outro lugar?)
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Ela perdeu a mãe há dez meses. O pai só quer saber de trabalho. Ela cuidou da mãe enferma durante três anos. Sabia que não a teria pelo resto da vida. A mãe era sua melhor amiga. Eram melhores amigas. Terminou um namoro antigo, de adolescência, enquanto cuidava da mãe. Diz que ele não foi compreensivo. Que não teve maturidade. Que não soube dividir. Que a família dele era diferente. Que ele mal se dava com a mãe. Que ele não tem idéia do que é cuidar de uma mãe enferma. (Uma mãe melhor amiga.)
Ela agora trabalha numa grande empresa. À noite, sofre de insônia. De segunda a sexta, dorme mal. Morre de saudade da mãe. Toda a sua saudade, toda a sua falta, toda a sua carência é da mãe. Depois da morte da mãe, não teve namorado. Acha cedo. Acha que a morte da mãe ainda é muito recente. Que precisa reorganizar a vida. Que vai reorganizar a vida sozinha. Que ninguém pode imaginar o que é perder a mãe da maneira como ela perdeu. (Uma mãe melhor amiga.) O pai só quer saber de trabalho. Ela é a viúva da mãe.
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No fim de semana, ele e ela são muito alegres. Os amigos os adoram. Ele? Ah, um cara bonito, inteligente, sempre bem-humorado. Ela? Ah, uma menina esperta, elétrica, sempre divertida. Saem com eles sem fazer esforço. Divertem-se. Ele e ela estão sempre dispostos a sair. Sempre solteiros. Vão a tudo que é lugar se bem acompanhados dos amigos. Cada um com os seus. Ele e ela não se conheciam até um mês atrás. Foram apresentados por um amigo em comum durante um show. O amigo colocou “mó pilha”. Eles acharam graça. Ela não ficava de primeira. Ele pegou o telefone.
Falaram-se na quarta-feira. No show seguinte, ficaram. Namorar? Que é isso, a gente mal se conhece. Pela internet, conheceram-se melhor. Trocaram músicas. Seus gostos eram parecidos. Adoravam sair com os amigos. Saíram de novo. Para o mesmo show. Os mesmos amigos. No dia seguinte, ele tentou sair só com ela. Ela não podia. Tinha combinado de sair com as amigas. Ele não questionou. Como andam vocês? Não sei, ele dizia. Sei lá, ela dizia.
Durante a semana, falaram-se pouco pela internet. Não haveria show no próximo sábado. Não combinaram nada. Encontraram-se domingo, por acaso, numa festa. Estavam cerimoniosos. Ela foi ficar com as amigas. Ele não questionou. Ficou com os amigos. Como andam vocês? Sei lá, ele dizia. Pára com isso, ela dizia. Ele foi embora cedo. Tinha muito trabalho pela manhã. Ela foi embora tarde. Demorou a dormir. Morria de saudade de seu grande amor: a mãe.
Não se encontraram no fim de semana seguinte. Estavam cada qual com seus amigos, alegres, em algum lugar longe de casa.


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