por Bruna Demaison - Quarta-Feira, 18 de Julho de 2007, às 12:52
Quando pequena ela só torcia para chover nos dias de educação física. Nem era pela preguiça, era mais a falta de jeito para qualquer esporte, a falta de corpo para o uniforme apertado, a falta de voz para se esgoelar no “passa a bola”. Aquilo de escolher time era humilhante, mais fácil desenvolver dotes corruptos e subornar as capitães do time do que se transformar em uma jogadora disputada. Deu uma risada ao lembrar disso ali, entre um olhar fixo na tela do computador e outro na da TV. Nunca foi interessada em esportes, mas só hoje já tinham sido uns cinco gritos de “Jade” para interromper o trabalho e o escritório inteiro prender a respiração. A secretária estava certa: “Eu não tenho mais estrutura emocional para esse Pan”.
Talvez por ter matado tantas aulas de educação física não tenha aprendido a lição de que o importante é competir. É nada! Importante é o pamparampanpan final do hino seguido do uuuuhhh explosivo do público. Aquilo faz com que ela precise disfarçar as lágrimas nos olhos a cada premiação. Não agüenta a alternância de emoções, por que esses meninos vão e voltam tantas vezes nessa piscina? E esses golpes incompreensíveis, esse esporte de roupa estranha é muito subjetivo. E esse tal fair-play, vende na vila olímpica? Se caísse das barras nada a faria subir friamente de novo para continuar. Levantar bracinho para os juízes? Iria logo soltar um palavrão bem sonoro.
Pensando bem, a bronca do chefe ontem equivaleu a cair de bunda no colchão depois do salto e ela manteve o sorriso. Cada qual no seu esporte… Ela também já perdeu muitas medalhas por décimos de pontos. Cair do cavalo então, nem vale apelar para o clichê. É, não está tão mal. Lembrou de Nelson Rodrigues – grande torcedor: “uma coisa é certa, ele dizia, não se improvisa uma vitória”. É errando, e chorando, redobrando o esforço e acreditando que se forma um campeão. É superação.
Foram chegando todos os momentos da sua vida onde só faltaram as faixas e bandeiras. Quando nasceu e o pai gritou na sala da maternidade “é menina” como se fosse “é tetra”, quando amarrou os sapatos e a mãe a rodou no ar como se fosse recordista mundial, quando foi reprovada na auto-escola e os amigos quase estamparam nas manchetes “estamos com você”, quando fez vestibular e a família sofreu pelo resultado como se fosse um match-point, quando a crise no namoro fez os dois entenderem que relacionamento era uma questão de treino. Sem aquela torcida, nenhum pódio seria tão emocionante, nenhuma derrota teria uma volta por cima.
Quem falou que torcida não ganha jogo?


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