por C.A. - Terca-Feira, 17 de Julho de 2007, às 11:38
Esta entrevista foi feita em 5 de março de 2002, num boteco da Vila da Penha, ao sabor d´algumas várias garrafas de cerveja preta [generosamente oferecidas pelo entrevistado, embora quase que só por mim bebidas], para trabalho, ainda inédito, sobre o Cacique de Ramos.
Sem falsa modéstia, é uma excelente entrevista - e isto porque, apesar de dedicada a assunto específico, o Cacique, é sobretudo registro da origem do samba como o conhecemos hoje, com seus protagonistas atuais, quase todos surgidos ali, na virada dos anos 70 para os 80, nas rodas de samba em fundos de quintal que tomaram a cidade, alternativa única para a reunião informal de sambistas num momento em que as escolas de samba se fechavam para eles, passando pelas profundas e lamentáveis mudanças estruturais que resultaram no que, com raras exceções, são hoje.
Ademais, é sempre bom registrar, Luiz Carlos da Vila [um gênio], para além de papo fabuloso, é um dos maiores compositores da melhor música [a popular] brasileira em todos os tempos - e será ouvido e estudado daqui a dois mil anos.
Conversar com ele - sabendo quem ele é - será honra minha eterna.
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C.A.: Cacique de Ramos – o que vem à sua cabeça?
LCV: Primeiro, uma lembrança boa; mas temos que lembrar que existe uma coisa que se confunde que é o Cacique de Ramos com o Fundo de Quintal: não só o grupo como também o movimento de rodas de samba em fundos de quintal – que gerou o pagode de quarta-feira, de onde saíram Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal, Arlindo Cruz e Sombrinha… Eu mesmo já tinha feito algumas coisas antes, mas a grande catapulta foi aquele grande encontro. O Cacique de Ramos é uma história que remonta até antes do meu tempo: quando eu era adolescente, já existia o Cacique de Ramos, fundado pelos “Biras”, como diz o Sombrinha, tinha o pessoal da Chiquita (Walter, Sereno), fundadora do Cacique junto com a família do Bira, Ubirany, Ubiracy – Cacique que, na época, era apenas um bloco de carnaval.
C.A.: Em que ano o Cacique foi fundado?
LCV: Eu não tenho muita idéia. Mas o Cacique de Ramos deve ser dos anos 50, até. No máximo, começo dos anos 60, isso o Bloco – que já me encantava. [O Cacique foi fundado em 1961].
C.A.: Já era um bloco falado?
LCV: Já era um bloco falado, conhecido por seus sambas! Dida, Neoci, Chiquita… (Canta).“Nesse carnaval não quero mais saber de brigar com você…” Pra se situar no tempo desse samba, você tem que procurar o registro do Primeiro Baile de Carnaval à Fantasia, na Praia de Ramos. [Com “Água na Boca”, de Agildo Mendes, primeiro grande sucesso, o Cacique desfilou em 1964 e, pois que os foliões não admitiam outro samba, também em 1965]. De lá, eu me lembro deste samba – a grande explosão do Bloco Cacique de Ramos; que tinha outra coisa muita engraçada, embora fosse séria: a briga com o Bafo da Onça, uma briga não só por espaço e por maior número de simpatizantes, como também aquela briga eterna e até física, briga de malandro, que já não existe mais. Era muito legal. Mas isso é o Cacique de que me lembro no começo. Eu só vim a desfilar no Cacique bem depois, bem mais pra cá. Há um hiato aí. Eu cheguei a ser do Bafo da Onça. Gostava muito do samba que se fazia no Bafo da Onça. Cheguei a conhecer o Sebastião Maria, negão enorme, aquele que brigava com o Bira. Eu tinha uma noiva que saía lá como passista, porque o Bafo da Onça tinha o carnaval em que o samba se desenvolvia um pouco parecido com as escolas de samba, tinha o samba no pé, e o Cacique de Ramos era como o índio mesmo (canta, erguendo os braços: hei! hei! hei!), sem compromisso, muito mais pela alegria, um bloco de pula-pula, que também era legal e é ainda. Então, depois do Bafo da Onça, que foi um namoro movido pela noiva que desfilava lá, embora também tivesse admiração pela agremiação, vim a encontrar o meu destino dentro daquela coisa do Cacique de Ramos, o filho do Cacique de Ramos, que é o fundo de quintal (o pagode), o legado da quadra. Se não fosse aquela quadra, provavelmente, não nos encontraríamos. Quando cheguei, o Jorge Aragão já fazia sucesso com “Vou festejar”. E foi mais ou menos nessa época que cheguei; e foi nessa época que aconteceu o grande encontro em que se reuniam Almir Guineto, Martinho da Vila…
C.A.: Até que ponto o sucesso do Bloco influenciou o surgimento do pagode de quarta-feira, daquele encontro movido a samba e futebol; e de que forma a explosão do pagode na quadra se refletiu no Bloco?
LCV: Eu não sei exatamente como a coisa começou. Samba e futebol sempre andaram muito juntos em qualquer tempo, geradores de cultura, coisa típica do Rio de Janeiro, sobretudo da periferia. O Neoci, grande compositor, parceiro do Dida, morando em Bonsucesso, ficou amigo de vários jogadores. [Neoci Dias, o Neoci de Bonsucesso, filho de João da Baiana, integrante da primeira formação do Grupo Fundo de Quintal, morto prematuramenteem 1981]. O Neoci era um agregador, cozinhava muito bem – outra coisa que une muito as pessoas. E ele ficou amigo do Alcir (Portela), jogador do Vasco, um craque. Então, levou o Alcir para aquela rodinha que eles faziam ali no Cacique: ele, Bira, Ubirany, tinha o Tio Hélio também. O Neoci sempre foi muito agregador – praticamente o responsável por trazer o Jorge Aragão pro Cacique; com certeza o Sombrinha, que ele conheceu em Santos, grande parceiro pra mim. Aí, então, o Neoci veio a conhecer a Beth Carvalho e o negócio foi crescendo. Quando eu cheguei, a coisa já tinha algum vulto.
C.A.: Em que ano você chegou?
LCV: 1978, por aí.
C.A.: Antes da Beth Carvalho gravar o “De pé no chão”?
LCV: Depois. Pouco depois. [Luiz Carlos da Vila chegou no Cacique em 1978, mesmo ano do disco “De pé no chão”, de Beth Carvalho].
C.A.: Apesar da fama do bloco, como é que você chegou naquele pagode de quarta-feira?
LCV: Na verdade, eu só passei a sair no Cacique depois que conheci o pagode de quarta-feira. Não foi exatamente o bloco que me abraçou primeiro. Saindo do Santo Cristo, da casa daquela noiva a que já me referi, eu tinha que fazer uma baldeação, porque o ônibus que eu pegava até a Vila da Penha parava de circular por volta das dez horas da noite. Então, eu tinha que pegar dois ônibus. Um desses era o Caxias-Praça Mauá, que passava pela Rua Uranos. [Rua em que fica a quadra do Cacique]. Uma coisa engraçada: o ponto não era em frente à quadra; mas, naquele dia, o trânsito estava lento e o ônibus parou na porta do Cacique. Eu ouvi aquele samba e lembrei que alguém já tinha me falado daquilo. Pensei: vou descer aqui. Foi um dia fantástico. Lá já estava o Jorge Aragão, uma estrela – porque “Vou Festejar” foi um negócio! –, estava o Martinho da Vila – e eu já era compositor da Vila Isabel, já tinha vencido um samba-enredo –, a Russa, o Ubirany… Minha mãe até estava fazendo 25 anos de casada e me lembro que o Jorge Aragão foi na festa e o Ubirany também. Eu desci ali e vi Geraldo Babão, do Salgueiro, e outras feras – era daqueles dias de luz, sabe? E eu fui ficando, entrei na roda de samba, nunca fui um grande partideiro,se tomarmos como partideiro o Deni, o Renatinho…
C.A.: Malcriados?
LCV: É… Malcriados. Porque o partido-alto tem um pouco disso. Dentro da roda tem essa malandragem, a competição, o desafio. As rodas de samba que rolavam no Cacique eram geralmente um pouco mais “light”, apesar da briga do Baiano, que morreu, que era fantástico, com o Deni, o Nelson Cebola, tudo lá, tudo no mesmo dia – era uma magia bonita pra caramba! Mas assim: eu entrei na roda porque tinha um monte de sambistas fazendo uma roda grande… Você fazer o verso dentro de uma única rima, eu lembro: “eh tu, Cachoeira de Macacu” – e isso até tinha mesmo, “eh tu, Cachoeira de Macacu”: a gente ia muito pra Duas Barra, o sítio do Martinho, todo mundo ia pra lá, tinha muito samba lá, aí você ficava naquilo, “Cachoeira de Macacu”, e cada um dos sambistas ali reunidos fazia um verso. Então, até fazer a volta completa na roda e chegar a você, dava tempo de sobra pra raciocinar, pensar direito; e esse era um tipo de partido-alto muito legal, como vários outros. E assim eu entrava. Mas quando o negócio era muito mais sério, eu sempre tava dando um jeito de “não, segura aqui que eu vou ali; vou tomar uma cerveja; alguém tá me chamando…”. Eu preferia levar como dever de casa, né? Pegar um tema e desenvolver. E assim aconteceu com vários sambas que fiz.
C.A.: Quando o negócio ficava sério nesse partido, quem estava na roda?
LCV: Ficavam o Baiano, o Nelson Cebola, o Deni, Geraldo Babão, Beto Sem-Braço, o Zeca Pagodinho era danado, é danado, Almir Guineto – tudo isso no Cacique, num dia só.
C.A.: E aí você desceu do ônibus e viu tudo isso?
LCV: Vi aquilo e fiquei fascinado.
C.A.: O Zeca já estava?
LCV: Não. O Zeca só chegou depois de mim, um pouco depois. Eu vi a chegada do Zeca. Eu lembro da chegada do Zeca. [Zeca Pagodinho chegou ao Cacique em 1983, mesmo ano em que gravaria com Beth Carvalho, no disco “Suor no rosto”, o samba “Camarão que dorme a onda leva”, dele, de Arlindo Cruz e de Beto Sem-Braço].
C.A.: Como você foi recebido no Cacique; houve alguma pressão; quem veio falar com você; havia alguma hostilidade?
LCV: Na verdade mesmo, já havia um conhecimento entre nós de quem era, mais ou menos, quem. Porque na cidade do Rio de Janeiro já se vivia… Nada acontece à toa, ou tão de repente, sempre há um pré: pra ter um clarão lá na frente tem que ter uns encontros antes, uns cruzamentos. E já se via no Rio de Janeiro… O Martinho da Vila fazia muito sucesso, então a Vila Isabel, por exemplo, que não era uma escola do primeiro time, como o Império, a Mangueira, o Salgueiro e a Portela, ela era uma espécie de segunda escola de todo mundo, até porque ensaiava no América, e um grande evento no Rio de Janeiro era a quadra da Vila Isabel, com uma roda de samba chamada “Casa de bamba”. E isso, por exemplo, já era um lugar onde muita gente se reunia: já cantava um samba, entendeu?, então você tava ali naquele meio e, de repente, subia lá pra cantar um samba na “Casa de bamba”; ou, então, você estava no centro da cidade, na editora Intersong, onde todo mundo se reunia pra mostrar sambas, pra mandar pros artistas, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho. Enfim, isso fazia com que muita gente se encontrasse. De repente, chegava alguém. Eu via o Neoci, o Jorge Aragão. Quando eu cheguei no Cacique, lembrei-me de que já havia visto o Jorge Aragão em algum lugar, assim como ele, de repente, já havia me visto. Eu também não cheguei tão de bobeira assim. Era uma roda de samba e você tinha que mostrar o que sabia. E eu estava realmente muito inspirado naquele dia. Venci até a timidez. Fui cantar logo um samba – que tinha sido o meu primeiro samba gravado: “Eu não pretendo pra mim toda a graça do mundo, minha primeira instrução foi saber dividir”. O conjunto Nosso Samba gravou, então, isso já tinha, né… (Risos). Aí eu cheguei e cantei. Senti que tinha gravado alguma coisa que era importante. Então, foi muito legal, porque o pessoal, na verdade, sempre foi muito cordial, muito “braços abertos”. E comigo não foi diferente – foi muito legal mesmo, uma festa. Tanto que, na mesma semana, minha mãe tava fazendo vinte cinco ou trinta anos de casada, e já nessa época, o Gravatinha, junto com o Jorge Aragão, que eram muito amigos, chegaram lá, lá em casa, e o Ubirany, que eu me lembro muito bem, também foi. Foi ótimo. E daí em diante, sempre uma alegria, uma grande festa. Essa roda de samba do Cacique de Ramos é que acabou me levando a sair no Bloco – em que, até então, nunca tinha saído.
C.A.: Como é que se relacionavam o pagode de quarta-feira e a escolha do samba do bloco, com a proximidade do carnaval? O ambiente mudava; transformava-se numa disputa pelo samba do Cacique?
LCV: Estava havendo um arrefecimento dos blocos – que já não faziam tanto sucesso: nem o Cacique, nem o Bafo da Onça, nem o Urubu-Cheiroso, do Irajá, nenhum bloco vinha fazendo o sucesso de anos anteriores a 79, quando os blocos brilhavam na Rio Branco e, se não me engano, até abriam o desfile principal das escolas de samba. Houve, então, uma queda brusca. E foi aí que veio o grande papel da roda de samba do Cacique, no fundo de quintal: o bloco estava meio devagar até que a Beth Carvalho começou a freqüentar e gravou, no final de 78, o “Vou festejar”, de um compositor que não tinha tanta ligação assim com o Cacique de Ramos, Jorge Aragão, mas que começou a ir à roda de quarta-feira, convidado pelo Neoci. Eu não garanto que se aquele samba fosse colocado em disputa pra ser o samba do Cacique no carnaval, o “Vou festejar”, não sei se venceria. Venceu pela força da mídia – que deu uma olhada pro samba: porque aquele negócio tava tão forte que as rádios que não tocavam samba começaram a ver que tinha alguma coisa acontecendo. “Vou festejar” foi o samba que o Cacique desfilou em 79 – não houve nem disputa. A Beth já tinha gravado, estrela, gravava no fim do ano, perto do Natal, do Carnaval – e veio de “Vou festejar”, que estourou: pra quê outro samba se “Vou festejar” já tava aqui dentro do Cacique?
C.A.: O Cacique desfilou com quantas pessoas no carnaval?
LCV: Ah! Milhares. Voltou a ter milhares. A roda (de quarta-feira) impulsionou o bloco – porque outros blocos voltaram também, não tão fortes. Você vê que o negócio era localizado no Cacique, por ali. O Cacique voltou a ter milhares, mas logo depois, também, caiu de novo, porque era uma coisa da roda de samba. Quando o Fundo de Quintal começou… Porque tava todo mundo ali, mas depois cada um foi procurar seu caminho, inevitável, você vê que o Grupo Fundo de Quintal, no começo, tinha Neoci, tinha Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindinho, Almir Guineto… Depois, todos fizeram carreira solo. O Neoci partiu para outra carreira, também, embora ele não tivesse gravado cantando, ele foi trabalhar nessa tal Intersong, porque ele era muito assim: dificilmente cantava um samba dele. Ele tinha um bom ouvido, cantava os sambas dos outros pros artistas. Muitos sambas nos discos do Martinho, da Beth Carvalho, da Alcione e tal foram apresentados pelo Neoci, porque ele fazia, mais ou menos, o que o Monarco faz com a Velha Guarda.
C.A.: O interessante é que ele é um cara pouco falado, o Neoci. Importante, mas desconhecido, apesar de alguns sambas lindos. Qual é a lembrança que você tem dele? Ele estava no dia em que você chegou mo Cacique?
LCV: Não lembro, mas devia estar. Ele agitava, agregador. Ele devia estar lá, sim. Eu não me lembro bem… A gente viajou pra São Paulo… Foi isso mesmo, com o Martinho da Vila. Engraçado, eu fiquei amigo do Neoci, mas eu mesmo não tive… Ele não era um cara, eu não sei por quê… Ele me chamava pra sair; pra ir pra Região dos Lagos, pra casa do Jorge Toquinho, que era um amigo que ficava sempre no Cacique, amigo do pessoal do samba e do futebol. Mas eu não desfrutei muito dessa parte dele de pegar meu samba e cantar pros outros. Isso não rolava muito. Às vezes, eu ficava até meio ressentido, porque não acontecia. Ele fazia com todo mundo… (Risos). O Mussum mesmo gravou um disco em que mais de cinqüenta por cento daquela produção é do Neoci, pelo menos no que diz respeito a isso de pegar o repertório dos outros e levar pro artista. E o meu samba que se tornou indispensável na minha carreira: “Lhe dediquei uma trova, um soneto e um samba-canção…” – esse samba, o Mussum já tinha escolhido o repertório todo, e o Neoci não tinha me pedido nada. Aí, saímos da Intersong já com o material do Mussum escolhido, um grande disco, talvez anterior a tudo, 80, 81, não sei ao certo, tinha Zeca Pagodinho, inclusive, e eu consegui encaixar o meu… (Risos). Como lançador de compositores, esse disco do Mussum foi o mais importante. É um disco pouco falado. Lá estão as primeiras músicas gravadas do Zeca, deixa eu ver se me lembro, Jorge Aragão eu não sei está, mas eu estou, o Almir Guineto, cada samba maravilhoso, Arlindo Cruz, com cada samba bonito, tem mais de um do Arlindo – e o Neoci era muito ligado nessa galera.
C.A.: Quando você chegou no Cacique, já havia aquela formação instrumental que viria a se consagrar, com tantã, repique de mão e banjo? Você já tinha ouvido falar nessa coisa diferente?
LCV: Quando cheguei, já era assim. E não me ocorre ter tido uma grande surpresa. Provavelmente porque já devia ter visto isso antes. O Almir Guineto tocou um banjo completamente diferente, até porque ele afinava o banjo diferente, bem percussivo – e ele explicava isso: o Almir Guineto é um grande violonista, o Almir Guineto tinha umas cordas de Baden Powell, com quem ele conviveu em São Paulo. Porque ele ficou muito tempo em São Paulo, com o pessoal dos Originais do Samba, com o Mussum, mangueirense, de escola de samba e tal… Então, ele explicava que, com aquele som, ele podia aparecer no samba, fazer com que o samba aparecesse – porque tocar violão em uma roda de samba, em determinados momentos, é completamente impraticável. Ele encontrou no banjo tocado àquela maneira, dele, uma forma de mostrar melhor o ótimo som que fazia, ótimo samba que ele fazia. E aí, aquele negócio ficou indispensável. O Martinho gravou logo em seguida… Aliás, o Martinho gravou, antes, o Almir Guineto tocando banjo no disco “Tendinha” e, inclusive, cantando nesse disco. O “Tendinha” foi um grande disco do que você pode chamar de pavio, que eu estava falando, antes do clarão. O disco “Tendinha” já tinha toda aquela cara do que explodiria no Cacique um pouco mais na frente. O “Tendinha”, acho que é de 77. [“Tendinha” é, de fato, de 1977]. O Martinho tem aquela coisa de perceber os movimentos do samba. Acho que ele também é um grande inventor de movimento. Tanto que, entre as estrelas todas, ele era o que mais freqüentava o Cacique. João Nogueira ia lá, Elizeth Cardoso ia lá. [João Nogueira integrou a Ala de Compositores do Cacique de Ramos]. O negócio era tão forte que todo mundo ia lá. Porque os compositores do Cacique é que eram os caras. (Risos). No Rio de Janeiro, quem quisesse ouvir samba inédito pra gravar, tinha que ir no Cacique. Outra coisa legal pra caramba era, mais ou menos, uma obrigação de, a cada quarta-feira, os compositores que ali se reuniam levarem sambas novos – isso era um grande barato, um grande desafio, porque você ficava com a inspiração sempre andando por perto, trazendo ela pra perto de você: na quarta-feira seguinte, você tinha que estar com o samba. Qual é a nova? Era essa a grande pergunta das quartas-feiras.
C.A.: E o repique?
LCV: O repique do Ubirany, esse tinha uma novidade pra mim. Porque tinha o Doutô que tocava antes, até com o Martinho da Vila, o repique de mão com anéis, e com as duas partes fechadas com couro, dos dois lados. E o Ubirany introduziu uma coisa que eu nunca tinha visto, do jeito que se conhece hoje e sem anéis, com um lado aberto. E ele tirou um tremendo som. Outra coisa importantíssima foi a união dessas coisas todas. Talvez aquele repique do Ubirany, tocado com anéis à moda do Doutô, não se encaixasse tão bem com o banjo do Almir Guineto, tocado daquele jeito. Aquele surdo do Sereno – que era o tantã… Em vez do surdo tradicional, como fazia o Originais e o Nosso Samba entre outros, veio o tantã do Sereno. Um dia, conversando com o Arlindo Cruz, ele me chamou a atenção para o seguinte, falando das cordas dentro do Grupo Fundo de Quintal, ele me disse que a coisa mais importante, a mais certa ali, é a união dos instrumentos de percussão – os únicos que não saíram, que permanecem. E é verdade: o som do Fundo de Quintal continua o mesmo. Apesar da saída do Almir Guineto, do Jorge Aragão, do Arlindo e do Sombrinha, todos músicos de corda, a percussão continua a mesma, apesar de alguma coisa aqui e ali, a coluna, a base é justamente a percussão do Bira, Ubirany e Sereno, exatamente onde tudo começou. Esse casamento foi fantástico.
C.A.: Então, ao mesmo tempo em que se preservava a tradição oral, o partido-alto, houve uma mudança no modo de se tocar o samba – mudança que passava basicamente pela percussão?
LCV: As alas mais radicais do samba… O pessoal da Velha-Guarda da Portela, por exemplo, teve uma certa resistência ao banjo do Almir Guineto. Porque, ao mesmo tempo em que rolava a roda de quarta-feira no Cacique, tava pipocando também a roda de samba da Tia Doca, lá em Oswaldo Cruz. A gente se visitava. Todavia, o banjo era um pouco rejeitado. Uma vez, isso quando eu gravei a primeira vez com a Beth, logo depois do sucesso do “Vou festejar”, dois discos depois, porque a Beth até me confundiu com o Luis Carlos Chuchu, autor de vários sambas de sucesso, grande compositor, radicado lá em São Paulo – a Beth gravou “Coisinha do pai”, que é dele, do Luis Carlos Chuchu, mas muita gente acha que é minha, Luis Carlos, o mesmo nome… Então, nesse ano em que a Beth me gravou, acho que 1980, gravou o samba “O sonho não acabou” e mais outro, no disco “Sentimento brasileiro”, o Nei Lopes, num desses pagodes na casa da Doca, levou um banjo e ofereceu para a Velha Guarda da Portela – foi uma coisa assim, do caramba! Só que o banjo que o Nei Lopes ofereceu já não era igual ao do Almir Guineto. Era aquele banjo mais antigo, aberto atrás, próximo ao dos “Oito batutas”, talvez – e esse banjo tem que ver por onde anda. O pessoal aceitou. E aí parou a pendenga. Ficou tudo certo, porque tava tudo certo mesmo. [O disco “Sentimento Brasileiro”, de Beth Carvalho, é de 1980 e traz dois sambas de Luiz Carlos da Vila, além de “O sonho não acabou”, “Herança”, com Jorge Aragão e Adilson Victor].
C.A.: Como foi a chegada do Zeca Pagodinho no Cacique, posteriormente figura fundamental na divulgação daquele encontro festivo em torno do samba e, também, importantíssimo na preservação da memória das rodas de quarta-feira – você se lembra?
LCV: Ele chegou chegando. Devagar, por educação. Mas, por carisma, por talento, por competência, ele já chegou chegando, com o cavaquinho dentro de uma bolsa de supermercado, ainda, naquele tempo, de papelão. A gente tava ali fazendo um samba e ele chegou, com educação, e já chegou tirando um samba que eu não lembro qual e em pouco tempo já tava versando tudo, já tava gravando, como compositor e, em seguida, como cantor, um dos grandes. Agora, se não tivesse havido aquela quadra, se não houvesse aquela quarta-feira, pergunto: será que isso aconteceria? Não. Eu tenho quase certeza que não. Aquilo ali tinha que acontecer daquele jeito e aquele lá era o lugar. Porque era do caramba mesmo. Todo mundo imbuído daquela vontade máxima de mostrar sua música, porque não tinha muitos lugares no Rio de Janeiro pra você mostrar seus sambas. Tinha lá a Vila Isabel que eu falei, mas a Vila Isabel já não era tanto de mostrar sambas novos. Já era lugar onde compositores de alguma consagração cantavam. Eu lembro da Vila Isabel: eu ganhei um festival, 77 pra 78, e o prêmio era ingressar na ala de compositores da Vila Isabel, imagina! A ala de Martinho, de Arroz, de vários compositores de sucesso, o Beto-Sem-Braço era da ala também. E aí, eu ganhei o festival e, no dia de me apresentar na roda de samba, que era uma coisa, Ari do Cavaco, Otacílio e outros que mandavam no pedaço… Eu era o oitavo a cantar e, quando foi chegando no sexto, no sétimo, fui saindo de fininho e, quando me procuraram, já tava longe, tal a minha timidez e tal o meu cagaço de enfrentar o povo e aquelas feras que estavam ali. (Risos). Já dentro do Cacique de Ramos não era assim – era uma coisa mais dali mesmo; dava pra cantar um samba novo, ficar mais à vontade.
C.A.: E a importância da Beth Carvalho? Como você a via, então?
LCV: A Beth Carvalho teve real importância. Ela foi uma rainha nesse negócio, né? Madrinha… Ela tem o espírito cavucador. Você vê que, antes disso, ela já tinha Nelson Cavaquinho no repertório – que já era samba do Rio de Janeiro em todas as rodas, mas ela deu uma força nisso muito grande, como com o Cartola e as “Rosas não falam”, tudo porque cavucou. E ela veio no Cacique e cavucou, tanto que levou esse som do Cacique, esse instrumental, pro estúdio – o que não era uma coisa fácil. Até então o samba tinha uma coisa um pouco de baixo, bateria um pouco… E pra levar essa percussão do Cacique, tinha que ter peito. E ela tinha. Ela já era a Beth Carvalho – mas tinha também que acreditar naquilo. Se não acreditasse, não ia dar certo. E ela se dispôs. Isso foi muito importante. Levou não só o som, como também os compositores, porque a partir de então, a cada disco, ela, que virou a sambista número um do país, pelo menos em matéria de mídia, e também porque levava o samba como tinha que ser levado, respeitando a maneira como os compositores cantavam as músicas, ela, então, a cada disco, fazia a base do repertório com os compositores que freqüentavam o Cacique.
C.A.: Tinha rivalidade no Cacique, gente que não se dava bem?
LCV: Tinha. Acho que isso tem em qualquer patota: juntou mais de dois, mesmo parceiros, já começa… Outra coisa que a Beth foi importante: tínhamos que fazer sambas pra Beth Carvalho – e já virava uma espécie de disputa pelo samba-enredo que a escola vai desfilar, entendeu? Então, era ali que se mostrava o samba pra Beth Carvalho. A Alcione também freqüentou o Cacique e, na seqüência, as rodas de samba que o Arlindo Cruz formou pela cidade, na Piedade, em Cascadura, que foram um desmembramento, um desdobramento da quarta-feira no Cacique, o Arlindo Cruz foi o desmembrador mambembe do que rolava ali na quadra do Cacique, dos pagodes de fundo de quintal. Mas, então, a Beth Carvalho era disputada. Uma vaga, uma faixa no disco da Beth Carvalho era muito disputada, porque representava a consagração pra uns, a apresentação pra outros, uma grana no bolso que dava pra resolver um monte de coisa, pra comprar teu carro, dar entrada numa casa – tudo isso ela levantava para os compositores que disputavam uma faixa no disco. Você, então, há de convir que tinha que haver, nessa disputa sadia, alguma coisa, alguma coisinha, mas nunca a ponto de acabar com o movimento. O que veio acabar com o movimento foi cada um de nós ter seguido a sua carreira: eu gravei disco, o Almir gravou disco, o Aragão gravou disco – todo mundo fez o seu caminho.
C.A.: Profissionalizou, né?
LCV: Isso.
C.A.: Jovelina – era uma presença marcante?
LCV: Era, com certeza. A Jovelina eu conheci um pouco antes. Nessa época rolava, também, as rodas de samba no Quilombo. [Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, fundado em 1975 tendo Candeia à frente]. E eu conheci a Jovelina mais pra esse lado de Acari. Eu acho que ela foi pro Cacique depois do Zeca. Não me lembro dela antes, lá no Cacique. Mas ela tinha todo o espírito do fundo de quintal: não só porque gravava os artistas dali, como também por ser partideira, boa de verso pra caramba – aquela voz completamente singular. Ela era uma das pessoas que gostaria que tivessem me gravado, como a Clara, que quase me gravou, aquela coisa do quase… Mas eu e a Jovelina, a gente era muito amigo… Ah, não: depois, depois, muito depois, já no final, num disco que gravaram lá em São Paulo, ela, Almir Guineto e Leci Brandão, os três gravaram “O show tem que continuar” – valeu Jovelina! Nunca foi um samba que eu tivesse mandado pra ela, né? Mas foi uma coisa que… Agora eu cheguei a me arrepiar, sabia? Porque era uma coisa que, tanto eu quanto ela, a gente queria, mas nunca acontecia, nunca aconteceu… Emocionante. Ela é marcante! Até hoje ela é marcante – e vai ser sempre!
C.A.: O pagode no Cacique era uma reunião imprevisível?
LCV: Tinha tudo no Cacique. (Risos). O Cléber Augusto, também, ele virou um dos componentes do Fundo de Quintal por meio dessas coisas da quadra de quarta-feira. Ele chegou lá um dia. O Cléber tocava também muito iê-iê-iê – pergunta pra ele do repertório de Roberto Carlos que ele sabe tudo. (Risos). Acho que ele foi até de rock, roqueiro, aquele… (Risos). Você sabe de uma coisa: todo mundo ali tinha uma informação muito grande das coisas. Eu lembro que, durante toda essa festança, a gente chegava nos lugares, encontrava com o Jorge Aragão e, lá pelas tantas, pela madrugada, a gente queria sair daquela coisa, cheios de samba, aí a gente começava a cantar só música do iê-iê-iê: “Se você pensa que meu pé é de papel…”. (Risos). Aí, de repente, duas e tanto da manhã, chegava um senhor, carregado por um jovem chamado Mauro Diniz. Nelson Cavaquinho – duas e meia da madrugada! Já estávamos nas cinzas mas, em pouco tempo, tudo se incendiou. Beth Carvalho pega o cavaquinho e manda: “Oh, Nelson! Conhece isso daqui?” – e canta “Notícia”. Pronto. Nelson Cavaquinho! Ele prestigiava a gente. Eu, dali, saí pra fazer show com o Nelson Cavaquinho em Brasília, tudo a partir do pagode de quarta-feira, e em 81 gravei meu primeiro compacto-duplo: “Enfim, um horizonte melhor me sorriu, talvez esperança no ar…”


Terca-Feira, 17 de Julho de 2007, às 17:27
ola blz eu queria sab mais sobre o cantor e compositor nelson cebola como dize ele tabei e historia do samba e tambei foi intregante do grupo fundo de quintal .. originais do samba e outros etc… e com muitas musicas boas gravadas por varios cantores coseituados no samba .. comos martinho da vila beth carvalho bezera da silva e outros grupos entaõ eu queria sab um pouco mais sob ese artista e sab po onde ele anda blz um abraço valeuuu fuiiiii