por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 12 de Julho de 2007, às 12:53
Ele me perguntou se eu poderia escutá-lo chorar um pouco, fazia menos questão de ombros que de ouvidos. Chamou a saudade de refúgio da preguiça, xingou a preguiça, e ao fazê-lo desandou a xingar-se: ele, o preguiçoso. Por quantos amores passou aquele homem?, entrei a pensar enquanto o pranto lhe tomava a voz e as mãos, estas espalmadas sobre a testa como se as lágrimas escoassem para cima. Em seus punhos, sobraram dois ou três cílios.
Livrou-se dos cílios, sentiu a testa molhada e logo maldisse as próprias mãos por nem o choro conseguirem represar. Eu não sabia o que ademais lhe escapava, presumi por cumplicidade masculina serem mulheres e mulheres e mulheres. Ele então notou meu olhar quase espantado, quase indiferente, talvez apenas de constatação: aquele homem chorava para cima. Sem que eu lhe perguntasse os motivos, disse que não iria me explicá-los. Passou as mãos nos cabelos e, num desespero lento, espalhou até a nuca as gotas antes salpicadas nos fios da franja. Banhava-se de humildade.
Não me acometeu a vontade física de acompanhá-lo no choro, meus olhos se teimavam secos, recusavam a solidariedade tola que eu lhes propunha, na ânsia de satisfazer uma espécie de desejo retroativo: quando eu chorava, sempre imaginava um amigo compadecido em igual estado, porque a quem assim não estivesse seria difícil transpor a sensação algo vorticosa, algo sublime da hipersensibilidade. Limitei-me, pois, a ser todo ouvidos, ao que ele agradecido já se antecipara. De pressa, ambos nos poupávamos.
A cada bufo, tosse ou soluço dele me volteava a imagem dum conhecido meu, um por um a me relampejar saudade semelhante, suponho, guardadas as plangentes proporções, quela contra a qual ele vociferava aflito. Nutria-me de suas deles lembranças durante o ócio voluntário, e nelas perscrutava uma dor invisível, um sofrimento recôndito sob suas feições joviais, tão francamente dispostas a sorrir enquanto do meu lado. Foi-me mais fácil distinguir traços de tristeza efêmera em lembranças pontuais do que traços de tristeza enraizada. Esta, alguns escondiam bem.
Aos poucos, os bufos, as tosses e os soluços começaram a rarear, o que me trouxe de volta atenção ao homem, não que meus olhos jamais dele tivessem saído. Agora, com um silêncio ainda intermitente, mas prolongado, notei o quanto seu choro passaria despercebido na multidão, malgrado as lágrimas ininterruptas e ascendentes, escalando em conjunto suas sobrancelhas, testa acima. Aquilo, atinei, confundir-se-ia facilmente com o suor do rosto em seu caminho natural, no barranco dos cabelos.
Por muito tempo, ele assim permaneceu, e por duas ou três vezes, sem que eu tivesse cogitado abandoná-lo, espalmou a mão em minha direção, num sinal de que eu ali também permanecesse, como se, apesar do silêncio, meus ouvidos ainda lhe fossem necessários. Eu o tranqüilizava, e ele começava a demonstrar alguma cerimônia. Até que, por acaso, desviei o olhar e assisti a uma gota explodindo no chão. Por reflexo, imediatamente olhei para o céu, suspeitando de chuva. Ele, não. Mal se virou para mim, agradeceu a companhia e, mais do que nunca envergonhado, partiu, com o rosto pouco mostra. Fazia sol.
Não consigo me lembrar se a essa altura eu estava em pé ou sentado. O tempo me expurgou da memória este e outros detalhes, inclusive o local do nosso encontro. Restaram-me indeléveis, no entanto, além de seu jeito e, sobretudo, sua dor, seu rosto inteiro, em cada detalhe, como na memória de um pintor renascentista. Eu trocaria as lembranças de todos os cenários do mundo, de todos os lugares que percorri, para que hoje pudesse enxergar com igual clareza também o rosto das mulheres que amei. Mas não posso, e não me abato. Aprendi a chorar para cima, em silêncio e em companhia, até uma gota explodir no chão.


deixe seu recado