por Bruna Demaison - Segunda-Feira, 9 de Julho de 2007, às 12:57
Tinha uma confusão naquela aula de francês e não eram as exceções nem a conjugação dos irregulares. Era o famoso verbo être, o “to be” Paris. Como um mesmo verbo podia significar ser e estar ao mesmo tempo? O sujeito não se definiu ou tem medo de assumir mesmo? Isso parecia um pouco sem personalidade…
Eu, por exemplo, seria a Lisa nos “Simpsons”. Em “X-Men”, Wolverine. E seria também David Shayne em “Tiros na Broadway”. Não assisti ao filme, mas fiz o teste para saber em qual personagem do John Cusack me encaixo. As meninas brincam disso quando pequenas (as meninas de quando eu era menina, pelo menos!) e um dia éramos as paquitas, no outro as filhas do Gaspar de “Top Model”. Elas eram legais, bonitas e se cansássemos daquela era só trocar. Durante as férias vivíamos umas vinte pessoas diferentes sem que isso envolvesse nenhum tipo de esquizofrenia. Éramos crianças, estávamos aprendendo.
Com o tempo tivemos que mixar toda aquela gente para definirmos nosso papel oficial na história. Não valia mais a coisa do ser e estar, era um ou outro, e o ser precisava ser logo porque o resto do mundo parecia depender dessa decisão para ver como reagir. Tem gente que já deixou a infância há tempos e “está decidindo”, não tem nem idéia de com quem se identifica, mas vai levando.
Invertendo a brincadeira infantil do “eu sou essa”, o canal americano USA lançou um site onde as pessoas mandam fotos, vídeos e criam seus perfis revelando talentos. “O que faz com que você seja único e fascinante?”, pergunta. Se os mais interessantes partirão para o estrelato de alguma forma ainda não foi divulgado, o canal só provoca: “divirta-se e não se preocupe – você pode voltar atrás e reeditar seu perfil”. Lá pode. E aqui?
Fomos construindo os “eus” através de conflitos, vontades, influências. O primeiro movimento foi olhar para o lado e grudar naquela gente. É a terrível fase em que somos mais personagens do que nunca, exatamente igual amiga do lado, sempre com um bando ao redor para garantir. Isso passa, a adolescência. Ufa! A duros golpes vivenciamos a lição teatral de que a ação não pode comandar a história, os heróis têm que ser mais fortes e, ao mesmo tempo, mais humanos: complexos, imperfeitos, ambivalentes. Os heróis somos nós e devemos ser reais. Sermos nós e não a soma das opiniões alheias dá trabalho. Temos que assumir um monte de decisões, ir contra, polemizar. Gosto ou não gosto, quero ou não quero, aceito ou não aceito, o “em cima do muro”, de tanto não desagradar, acaba que não agrada a ninguém.
Isso não é uma campanha pelos extremos nem radicalismos, mas pelo fim da coisa morna, do tudo bem. Seja! Seja qualquer coisa, mas seja e dê a certeza de que você é aquilo. Deixe clara a sua opinião, o que você está fazendo aqui, quem pode se aproximar e o que deve esperar. Muitos se afastarão, ótimo! Os que ficarem serão mais fiéis, estarão levando o que compraram. Não banque a boazinha, não discurse sobre o que você faria para o espelho: faça. Não se esconda, dê a cara tapa. Nem gaste seu tempo no mundo só ocupando espaço porque já tem muita gente, faça valer o seu quinhão de terra.
Para a nossa história ser legal nossos personagens devem ser bem definidos. Eles falham, mas bancam o que são. Senão o público não entende bem quem está ali, não se identifica e aí… fracasso de audiência.


deixe seu recado