por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 6 de Julho de 2007, às 12:57
Juveninho conheceu uma evangélica. Ela é linda de morrer. Isso dá uma tristeza profunda em Juveninho. Papo vai, papo vem, ela disse: “Sexo só depois do casamento”. Juveninho se despediu na hora: “Um beijo, tchau”. Crê, Juveninho, que a sinceridade está muito mais nas atitudes que nas palavras. Juveninho tem horror à hipocrisia. Nunca disse “obrigado” a um motorista de ônibus. Juveninho tem horror a motoristas de ônibus.
O pai da moça evangélica nunca deu bola pra ela. É como se ela fosse órfã de pai. A teoria de Juveninho é a seguinte: alguém disse à moça que “Deus é pai”, e ela acreditou. Só acha, Juveninho, que, como pai, Deus não devia cobrar dízimo, e sim pagar mesada. Se Deus pagasse mesada, Juveninho seria o maior evangélico de todos os tempos. A cada vez que o pastor gritasse “amém, igreja!”, ele gritaria “amém!” mais alto que a igreja inteira e o Pavarotti juntos.
É de opinião, Juveninho, que as órfãs estão muito mal assessoradas neste mundo. Outro dia, no calçadão, a menininha da flauta estava tocando “Aquarela”, do Toquinho e do Vinícius. Ela, que sempre tocava “O mundo é um moinho”, do Cartola. Bossa nova, pensou Juveninho, deve render mais esmola que samba. Então Juveninho chegou perto dela e gritou: “Sua vendida!”. A menina quase engoliu a flauta. Aquilo sensibilizou Juveninho, que logo pediu desculpa. Notou que estava descontando nela a raiva da outra. Deixou cinqüenta centavos. Nunca pagou tão caro por uma bossa nova.
Para Juveninho, toda moça cujo pai não lhe dá bola deveria ir atrás do pai. Como nas novelas. E perdoá-lo. As moças, diz Juveninho, vêem novela e não aprendem nada. É preciso, segundo ele, sentar o pai numa cadeira e obrigá-lo a saber o básico sobre sua vida: estudo, trabalho, idade, esporte, rotina, viagens e namorado - este, sem maiores detalhes, sobretudo se o namorado for Juveninho. Outro dia, Juveninho soube que vai abrir uma Eclectic no Centro com segundo andar só de terninho. É o tipo do anseio que um pai precisa ouvir de sua filha: “Pai, finalmente vai abrir uma Eclectic no Centro, e você não sabe da maior: com segundo andar só de terninho!”. O mundo seria melhor se os pais soubessem do segundo andar só de terninho. Juveninho, contudo, não gosta de mulher de terno.
Há três tipos básicos, ensina Juveninho, de órfãs de pai: uma - a mais comum - só quer colo e atenção; outra só quer louvar ao Senhor; outra só quer tocar bossa nova. Juveninho não desiste de nenhuma. Manda todas procurarem pelo pai verdadeiro e, na falta de um, escolherem um senhor de idade para falar sobre terninhos. A curto prazo, porém, Juveninho admite ter mais chances com a menininha da flauta. Domingo que vem, vai andar pelo calçadão de novo. Dizem as más línguas que ele já decorou a letra de “Aquarela”.


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