por João Paulo Duarte - Terca-Feira, 3 de Julho de 2007, às 16:23
Aos queridos amigos Angelo de Aquino e Paulo Pedroso, saudades e muitas lembranças pelo Leblon.
No Shopping Leblon, atrás de um presente para uma amiga, entrei na Travessa. Escolhido, embrulhado, colocado na sacola que de um lado tem escrito o nome da livraria, do outro Leblon. O Leblon virou grife, há muito.
(Peguei a foto antiga. Eu, aos quatro anos, vestido de Zorro, mãos dadas a meu pai ainda grisalho, em frente ao meu prédio na Selva de Pedra, ainda sem grades e cancelas – o primeiro carnaval que me lembro. Enfrentava os bate-bolas, corria
atrás das bailarinas e adorava observar aquelas barracas que vendiam máscaras de monstros, políticos e outros apetrechos pra folia. Bem antes dos blocos de amores instantâneos ou do coração ter ficado azul-e-branco após a primeira palpitação pela
Portela.)
O Jobi é uma análise combinatória. A disposição dos personagens nas mesas muda com constância. Amigos dos amigos dos amigos. Os amantes de hoje estavam em mesas distintas há três meses. Os amantes de ontem vieram hoje em horários diferentes, em mesas diferentes. Ele veio com amigos, ela preferiu trazer um outro amante. Mas só o Júnior percebeu. O banheiro do Jobi é um ponto de encontro de casais eventuais. Essa é uma das melhores características de um bar: o banheiro unissex. E tem mais: por um pequeno círculo na porta é possível ver distância se o cara conseguiu, enfim, papear com aquela gata. Muitos primeiros beijos aconteceram apertados perto da pia, com outros clientes tentando passar.
(O Cinema Leblon era um só. Eu me lembro quando esperava pela namoradinha do colégio na esquina, com uns doze anos, pra ver filme qualquer. Em frente, a visão também era diferente: tinha o Itálica, restaurante tradicional dos bons. No balcão vendia-se a melhor Coca de máquina que eu bebi na vida – naqueles copinhos de papel -, coxinha de galinha e um bife milanesa delicioso. Eu amava muito tudo aquilo.)
O Big Polis é bem melhor que o Bibi Sucos. Não simpatizo com nada que abra filial na Barra da Tijuca. (Ao BB Lanches não vou, é muito perto do Jobi). Se a fome bate de madrugada, vou comer filé com queijo no Jobi, não quero saber de pizza.
(Me lembro de andar de mãos dadas com a minha mãe pelo Leblon, com uns seis anos. O sorvete de chocolate choc-chip, a bala alegre, o pastel e as iscas de filé do Alvaro’s. Uma vez me perdi dela na praia, em frente Carlos Góis. Fiquei batendo papo com uma outra família até ela me achar. Nessa mesma época, eu pedia aquele pão de queijo da Plataforma, comia um pedacinho de picanha. Antes da sobremesa, minha mãe falava: “João, sobe ali e dá um beijo no tio Tom”. Que maneira mais graciosa de apresentar o filho Bossa Nova. A minha mãe foi a primeira pessoa que conheci que amava o Leblon.)
O Embalo Bar é pra encostar a barriga no balcão e está virando o marco de uma juventude oposta aos leskes do Koni – cultural e geograficamente: o Koni fica exatamente frente do Embalo, só que tem um quarteirão os dividindo (graças a
Deus!). A cerveja gelada em cima da estufa que mantém quente a carne assada, o balcão com sete bancos fixos, os azulejos vermelhos, brancos e verdes (Seu Ivan, o dono, é torcedor do Fluminense), o escudo do Flamengo colado na parede (Samir,
atendente e genro do Seu Ivan, é rubro-negro roxo). Lá no alto, direita, as fotos da neta do Seu Ivan, filha do Samir, menina linda e tricolor. Seu Ivan resiste: diariamente ele recebe propostas pra vender o Embalo, querem construir mais um desses mini-restaurantes japoneses. Coisa mais sem graça.
(Pedi pra minha avó comprar uma camisa da Hering amarela. Quando eu tinha dez anos, a garotada da Selva de Pedra – e arredores – formava times para jogar bola naquela pracinha ao lado da Cobal. Eu morava no prédio Alphard, que não tinha time. O pessoal do México 70, na mesma Rua Padre Achótegui, me chamou pra jogar. Depois de correr a tarde inteira com a criançada, era começar a escurecer e eu sabia: minha avó estaria ali na esquina com a Fadel Fadel me olhando, sorrindo, esperando eu voltar. Que saudade!)
Não vou me cansar de andar pela Humberto de Campos rumo ao Esch. Faço esse caminho quase todos os dias, há sete anos. No fim do percurso, o resultado é quase sempre o mesmo. Encontro com amigos, encontros, charutos, uísque e cerveja. Não muda muito. Se um dia alguém quiser contar minha trajetória boêmia, peçam pra explicar uma coisa: no dia que resolvi que não seria como os meus pais – abstêmios convictos –, comecei na boemia pelo fim. Convivi com amigos 40, 50 anos mais velhos que eu. Litros de uísque, milhares de baforadas cubanas, festas inatingíveis, mulheres impensáveis aos 19 anos. (Amizade com mais velhos nos traz prematuramente o
sentimento da perda dos amigos. Aprendi a conviver com isso. Vou sentir saudades.)


Terca-Feira, 3 de Julho de 2007, às 15:14
à nossa boemia!
SAÚDE E SUCESSO!
Abraço