por Bruna Demaison - Sexta-Feira, 29 de Junho de 2007, às 12:58
Foi quando o padre falou “na alegria e na tristeza” que deu-se o inusitado: “na tristeza ainda vai, que cristão nenhum deixa o outro desamparado, mas na alegria só se eu estiver feliz também, né?”
O cara que respondeu com um “por quê?” ao bom dia matinal e teve a compreensão da maioria, eu que cheguei abraçando as pessoas ouvi os cochichos: ou teve uma ótima noite ou está na fase maníaca. Felicidade alheia, coisinha mais insuportável! Por isso quem beija o português da padaria o faz no Manoel do outro bairro, assim não desperta a curiosidade da vizinhança. Senão coitado do anjinho da guarda, crente que teria umas férias depois do esforço da conquista, teria que trabalhar dobrado na manutenção do serviço.
Existe a grande felicidade, aquela do acertar das contas lá do final, quando queremos dizer que valeu a pena. Existe a cotidiana, um mergulho no verão, o beijo roubado, a música na hora certa. Essas estão aí, falamos sobre elas, convivemos sem tanta inveja da alheia. E aquela de quando dá tudo certo? Porque s vezes a vida dura dá uma brecha e tudo vai bem por mais que uma noite. Faz sol e não muito calor, o telefone toca, o dinheiro entra, o projeto anda, o cabelo brilha, a calça não aperta, as horas passam e não disparam nem entalam, é como chegar na praia e o mar verde estar morno e com a quantidade de ondas exata entre o tédio e o caldo. Nesse caso, fala baixo e não dá bandeira porque nem é impossível conseguir, dificílimo é reconhecer. Aí incomoda…
Escreve-se muito sobre fossa, crise, fim, solidão, ninguém desperdiça tempo registrando felicidade ao invés de vivê-la, nem precisa buscar apoio na leitura quando só quer desfrutar da alegria. Escritores egoístas e sem visão de futuro! O mundo gira e a Lusitana roda, a maré mansa também vai passar demore minutos ou anos. Há que se documentar a existência de risadas e validar o caminho até elas, incentivar os insones, carentes, desacreditados e potenciais candidatos a de bem com a vida antes que eles atribuam somente aos contos de fadas a chance de inícios, meios e finais felizes.
Existe a felicidade agora. Férias de insatisfações. O resultado da equação metas atingidas + alma leve + um certo grau de distanciamento, tanto para não se abater demais com as mazelas ao redor quanto para ignorar completamente os enxeridos cheios de opinião sobre nossas vidas, essa mesma que nos faz sorrir quando pensamos nela. A tranqüilidade de descobrirmos que não é esbanjar dinheiro, ter todos os amigos disposição, a família em perfeita harmonia, aplausos diários, pescoços torcidos a caminho do mar, sexo de cinema, jantares a luz de velas, não é um tormento de entusiasmo nem uma embriaguez interminável, é uma paz. Apesar de tudo e por causa disso.
Dá licença, preciso aproveitar esse bem-estar, em pouco tempo me acostumarei com o que conquistei e o bichinho do querer mais mostrará os dentes. A jornada do incompleto vai recomeçar mesmo que nunca tenha sido abandonada, ela só estava quietinha admirando a vista, saciada. Olha que lua linda, o céu está estrelado. Amanhã vai fazer sol.


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