por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 26 de Junho de 2007, às 12:59
Minha sócia querida,
Deve ser a quinta ou sexta vez que tento iniciar esta correspondência, não sei por que cargas literárias ela sempre se afoga na segunda linha, mas agora vai, nem que eu alongue esta frase só para chegar à terceira, ou abra um bono de chocolate como combustível. Abri o bono. É um bono minitorta, desses novos de uma só metade, aposto que o inventaram para coibir nós usuários de parti-lo em dois com os dentes e roubar apenas o recheio, hoje preso por bordinhas elevadas e garfadas como as dos pastéis. Prédios gradeados, carros blindados, bonos antifurto, não sei onde a humanidade vai parar com tantas medidas de segurança.
De todo modo, tenho uma contribuição. Reuni provas suficientes de que a bebida associada ao volante é muito menos perigosa do que a bebida associada ao telefone, esta sim uma dupla a ser imediatamente combatida pelo governo e pela sociedade. “Se beber, não dirija”, dizem as campanhas de prevenção contra acidentes de trânsito. “Se beber, não telefone”, dirá a minha. O trânsito mata anualmente no Brasil cerca de 35 mil pessoas, 65% dos motoristas envolvidos em acidentes haviam ingerido suas biritas, mas já paraste para contar quantos anos-luz neguinho retrocedeu, quantos sonos se perderam, quantas relações foram destruídas direta e indiretamente por uma ligação alcoolizada? Garanto que muito mais de 35 mil por ano.
Não se fazem mais bêbados como antigamente, Bruna. Eles eram infinitamente mais prudentes, pois que, uma vez empapuçados na rua, além de terem de arranjar um orelhão e umas moedinhas, ainda deviam ter à mão uma agenda ou saber de cor os números e, mesmo assim, corriam riscos sobremaneira maiores de não encontrarem seus destinatários do outro lado da linha. O progresso, como se sabe, foi a maneira encontrada pela humanidade de gerar novos contratempos para não cair na mesmice, e agora, na era do celular, qualquer mocinha não só carrega todos os ex-namorados no bolso, como pode falar com eles sem pedir desculpas por acordar seus pais. Existirá, Bruna, pior ameaça à evolução da espécie? Haverá divórcio que se sustente se as partes andam 24 horas por dia ao alcance das mãos?
Domingo à noite, que já era uma cachaça natural, o apogeu da melancolia coletiva, tornou-se o horário universal de caminhada ao patíbulo. Eu aprendi - com o velho Marquinhos Satã (hoje Santana) - que não se deve crer em tudo aquilo que alguém nos diz num momento de prazer ou de amor, mas tudo bem, só desconfio, ademais, do domingo à noite: será ele o polígrafo ideal ou nosso primeiro de abril de toda semana? Por via das dúvidas, o telefone, como a pista da praia, deveria ser interditado aos domingos. Há que se prevenir contra ataques de sinceridade, movidos ou não por conteúdo alcoólico. As moças estão descontroladas demais, são capazes de confessar até com quem andam se pegando por aí, quem é o louco que quer saber isso de suas ex-namoradas? De minha parte, não atendo mais telefonemas aos domingos, de modo que, se alguém morrer durante o Faustão, por favor me avisa por e-mail.
Até o último sábado, confesso, o mote inicial da minha campanha era o recall de todos os celulares. Inesperadamente, porém, um amigo leitor me atenuou as idéias sob o argumento extraordinário de que – acredite, Bruna – já pode ler nossas crônicas tribuneiras de seu dele aparelho, seja lá onde for, inclusive no toalete! Com o perdão do relato, jamais imaginei que um celular pudesse realizar meu sonho profissional de ser lido sobre um vaso sanitário, local onde horas a fio estudei meus autores favoritos. (Fui fazê-lo, aliás, na locadora do posto de gasolina aqui perto e me deparei com o seguinte aviso: “Por questões de segurança, favor não subir no vaso sanitário”. Não entendi, Bruna, podes me explicar? Subir no vaso sanitário? Subir de ficar em pé? Eu sempre falei que não se deve vender álcool em posto de gasolina.)
Acabei então cedendo à legalização dos celulares, desde que feitas as devidas campanhas de conscientização de seus efeitos, tanto nos comerciais de empresas de telefone quanto nos de bebida, todos eles encerrados por ao menos um dos três slogans a seguir: “Se beber, não telefone”, “Telefone com moderação” e “Se beber, leia Tribuneiros.com”. Claro que a essa altura, Bruna, já me conheces o suficiente para imaginar que tudo isso é tão somente uma forma dissimulada, quase subliminar, de cooptação de forças para uma campanha de proporções muito maiores: a de combate ao alcoolismo – e não só em postos de gasolina. Eu já era contra o álcool enquanto ele, aparentemente, só agravava os problemas dos outros – acidentes (65%, repito), assassinatos (70%) e que tais -, mas seu vínculo ao celular tornou a inércia insustentável e, temendo novos contratempos, lutarei contra sua popularidade.
A bebida, como a droga, ocupa na vida do cidadão um lugar vazio d’outros afetos e atividades menos degradantes e destrutivas, como ler os Tribuneiros e comer bono minitorta. Se conseguirmos, Bruna, pouco a pouco roubar o público da bebida para o site, faremos um bem à sociedade e, melhor ainda, ficaremos milionários com isso! E aí: topas? Precisamos convencer o Andreazza. Por enquanto, vou deixar o bono em segundo plano, até porque a academia está cara demais para ser desperdiçada num pacote de chocolate, e não é para isso que faço uma força sobre-humana no leg press horizontal. Tu sabes, né? Sartre só dizia que o inferno são os outros porque nunca deitou no leg press horizontal.
Como forma de motivação, aliás, a cada esforço sobre-humano na academia, imagino-me a segurar pela mão uma pessoa querida à beira do precipício. Se concluo o exercício – as dez repetições dum triângulo pulley, por exemplo -, é porque a puxei de volta, sã e salva. Senão, é porque ela caiu. Ah, Bruna, já deixei cair um monte de gente… Tu mesma, várias vezes, desculpa. O Andreazza, também. Meus leitores, um por um. Meus amigos, todos. Coitados dos meus parentes. Fui testar meu amor próprio, segurando a mim mesmo na abdução dos ombros, e o eu-de-baixo puxou o eu-de-cima, e nós dois morremos espatifados nas pedras do rio. Sou o maior assassino da academia. Já matei todos os professores, e nem precisei beber. Espero que me perdoes.
Sobre o perdão e outras esperanças, registro, também tenho tanto a refletir que até me dói guardar para a oportunidade vindoura. Mas é um prazer, Bruna, ter-te tão próxima quanto só a distância dos telefones permite.
Obrigado por anotar os compromissos da Casa no teu bloquinho. Ah, as mulheres…
Beijos à família e saudações tribuneiras,
Pim


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