por Bruna Demaison - Terca-Feira, 12 de Junho de 2007, às 13:01
Fiquei ali deitada embaixo da cama. Eu, duas malas de viagem que não cabem mais em lugar nenhum da casa e o cachorro, presente mais pela curiosidade do que por interesse na ação propriamente dita. Aguardávamos o monstro. Ele costumava aparecer naquele escuro antigamente e vi que seria um bom momento para conversarmos. Há quem procure ex-namorados para entender problemas de relações atuais, eu achei por bem trocar uma idéia com um medo já superado para enfrentar melhor os recentes. Quando meus pais fossem dormir ele apareceria, a não ser que tivesse se mudado por rejeição: não pensava nele há mais de vinte anos.
Nos últimos tempos meu pensamento vivia ocupado com outros assuntos, e encabeçando a lista da quinzena estava “o quanto queremos as coisas”. Querer mesmo, um mesmo até com muitos ezinhos: meeeeesmo! A ponto de arriscar. Você faria loucuras pelo seu desejo? Abriria mão de quê? Enfrentaria as conseqüências sem medo? Do monstro debaixo da cama das crianças ao medo de decepcionar dos adultos só muda a temática porque a intensidade parece a mesma. Talvez os motivos se tornem mais plausíveis. Talvez… A vantagem é que o medo do escuro passa enquanto o pânico de falhar só fica mais nítido conforme o crescimento de cada medroso.
E é um cardápio variado de medos, esquema rodízio: medo do abandono, de não ser capaz, de que dê tudo errado e estranhamente de que dê certo, medo de ninguém gostar ou de alguém gostar e eu não corresponder, medo de ouvir não e mais medo ainda de não conseguir pedir, medo de ficar sozinha e de não conseguir administrar tanta gente, de ser magoada e de machucar, dele cansar, medo de um dia explodir, de nunca falar, medo de perguntar e ter que responder, de tentar e desistir, de perder a hora e de se antecipar, de se arrepender e de nem fazer, de para sempre fingir, medo de jogar tudo para o alto, de alguém não gostar, de ninguém ler e de muita gente ler, de ninguém entender, de pararem de cobrar, de faltar palavra, medo de perder. Medo terrível de perder! Não só de acabar, mas de perder sendo eu a agente provocadora da mudança. E se o medo de perder for maior do que a vontade de ganhar?
A toda hora aparecem situações em que precisamos optar e são exatamente essas escolhas que vão definindo nossa rota. Nem sempre são decisões irrevogáveis, inclusive muitas vezes não são, mas ali na beira do precipício parecem questões de vida ou morte. Para os impulsivos, os que perguntam para o analista, os que convocam o conselho Jedi, os que não decidem e isso já é uma decisão, os que pedem colo, os que morrem de enxaqueca, os que criam uma planilha e até para os zen-budistas há o segundo antes do veredicto final, e ele traz junto um frio desconcertante na barriga!
Canta a música que o medo é a medida da indecisão. É também uma pista de onde viemos, do pouco que conseguimos aprender até aqui. Se for uma previsão de riscos possíveis podemos revertê-lo a nosso favor, encará-lo como um alerta e criarmos alternativas para lidar com cada risco.
Horas depois o cachorro já tinha pulado para cima da cama e nem sinal de monstro. Ele definitivamente se foi. Taí, vou expulsar meus medos por rejeição! Imagina se um dia meus pais tivessem demorado a acender a luz e o monstro tivesse tido tempo de pular em cima de mim. Bem que isso poderia ter acontecido no começo da existência dele, assim eu não teria gastado tantas noites em alerta. Essa é a vantagem de acontecer o que tememos – o medo acaba, é derrotado. Então é melhor deitar debaixo das camas logo, olhar bem na cara dos monstros e… na hora decidir a tática. Pode ser aliviante pensar “ah, por esse eu já passei”.


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