por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 29 de Maio de 2007, às 13:04
Depois de tantas buscas, todos deram como certa a morte de Zequinha. Míope até os ossos, Zequinha jamais sobreviveria na selva onde seu pára-quedas tinha caído. Realizaram até um enterro de corpo ausente. Dentro do caixão, colocaram apenas os óculos reservas de Zequinha.
Dois anos depois, quando resolveram desmatar a selva, Zequinha acabou reaparecendo. Usava a mesma roupa e segurava uma caixinha. Seu maior troféu eram os óculos: não tinham um arranhão sequer. Toda noite antes de dormir, explicou Zequinha, ele colocava os óculos na caixinha.
Zequinha apareceu em todos os programas de tevê da cidade. Suas peripécias repercutiram em cadeia nacional. Se as imagens de Zequinha chegaram ao exterior, ninguém da cidade ficou sabendo. Mas sempre, em todos os programas, o destaque era para os óculos de Zequinha: nenhum arranhão. Como pode? Incrível.
A ótica de Zequinha procurou Zequinha: queria fabricar óculos da marca Zequinha. Uma empresa de brinquedos procurou Zequinha: queria fabricar óculos de brinquedo da marca Zequinha. Os pais de Zequinha assinaram contratos. Exigiram porcentagem nos lucros. Ambos os óculos venderam como água. Zequinha ficou rico.
Agora, todas as crianças do país usavam óculos Zequinha, que já vinham com uma caixinha. Até quem não era míope passou a usar óculos. Zequinha ganhou uma porção. Mas preferia usar o seu: o Zequinha original.
A ótica propôs levar o original a leilão. Zequinha recusou. A loja de brinquedos propôs levar o original a leilão. Zequinha recusou. A ótica e a loja de brinquedos se uniram para propor o leilão. Os pais de Zequinha insistiram. Ele impôs uma condição: que abrissem o caixão e recuperassem seus óculos reservas. Todos concordaram.
A notícia vazou. Iam reabrir o caixão de Zequinha para recuperar os Zequinhas reservas. Todas as equipes de tevê vieram registrar o momento histórico no cemitério. Uma multidão de fãs, todos vestindo seus Zequinhas, também prestigiou a cerimônia. Mal os coveiros abriram o caixão, o prefeito pegou os Zequinhas reservas e constatou que estavam inteiros e brilhantes: nenhum arranhão. Como pode? Incrível.
Zequinha então se aproximou e segurou seus Zequinhas reservas. Estavam inteiros. Estavam brilhantes. Mas onde estavam as caixinhas? Reviraram o caixão inteiro. Reviraram os caixões vizinhos. Reviraram todo o cemitério. Nada das caixinhas. Haviam esquecido de enterrar as caixinhas junto com os Zequinhas reservas.
Todo mundo tentou enganar Zequinha com sua caixinha. Mas Zequinha não era bobo. Conhecia suas caixinhas reservas. Reviraram a casa de Zequinha. Reviraram a cidade. Fizeram mais buscas pelas caixinhas reservas do que tinham feito por Zequinha. Zequinha ficou triste. Realizou um enterro de caixinha ausente. Dentro do caixão, colocou apenas o Zequinha original.
No dia seguinte, todas as tevês anunciaram: o caixão das caixinhas fora arrombado. Levaram o Zequinha original. O país inteiro era suspeito. Os coveiros. O prefeito. Os pais. Os repórteres. A ótica. A loja. As crianças. Mas Zequinha já não se importava. Ele gostava mesmo era da caixinha. E não daria a original a ninguém.
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Este conto é dedicado a Carlos Andreazza, o mais novo usuário dos óculos Zequinha.


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