por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 25 de Maio de 2007, às 13:05
Desconfio de todo mundo que namora “uma pessoa”. O sujeito que corta meu cabelo namorava “uma pessoa”. Confessou-me outro dia que terminou o namoro porque “essa pessoa” ligava o dia inteiro para o salão só para se certificar de que ele estava de fato lá, trabalhando, e não tomando, digamos, um chope na Farme de Amoedo.
O mundo está cada vez mais cheio de gente que sai, fica ou namora “uma pessoa”. É tanta pessoa por aí que hoje existe um bocado de festas, viagens e passeatas exclusivas para pessoas. Se você não for pessoa, amigo, não adianta: não entra. Quem especifica se trumbica.
Não tenho preconceitos especiais contra pessoas. Na academia, todo mundo sabe que o professor que alonga melhor é pessoa assumida. Pessoas, quando bem resolvidas, são metódicas e competentes. Feito o sujeito que corta o meu cabelo. Não é porque chama ex-amor de pessoa que não é bem resolvido. Se você disser ao telefone que tem que desligar porque está indo jogar bola na casa do Pelé, dificilmente ouvirá “Um abraço, tchau” de resposta. Imagino que, para pessoas, dar nome aos bois em público também desvirtue alguns assuntos, e s vezes resulte em situações menos agradáveis do que justificar sua ida casa do Pelé.
Há muito mais gente mal resolvida do que pessoas. Gente que gosta de determinados lugares porque neles encontra “gente bonita”. Desconfio de todo mundo que gosta de festas cheias de “gente bonita”. Desconfio, antes de tudo, de festas cheias de “gente bonita”. Hoje se vende até o público do evento, e se é preciso vender o público, o evento deve ser mesmo uma bosta. É como se eu dissesse: “Leia Tribuneiros.com! Um site cheio de leitores inteligentes!”.
É infinitamente mais preocupante ouvir que uma festa é boa porque tem “gente bonita” do que ouvir que alguém namora “uma pessoa”. Pessoas, pelo menos, pressupõem sexo. Gente bonita pressupõe frigidez, vitrine, uma imensa azaração sem fins lucrativos. A curiosidade pelo “quem vai”, que era só falta de personalidade, de gosto individual, de interesse intelectual, virou falta de sexo. Quem for exigente e quiser arrumar alguém que valha a pena, é melhor freqüentar lugares de gente feia e procurar um bonito ou uma bonita. A chance é maior. Quanto mais “gente bonita” no mundo, mais assexuado o mundo fica. Se você começou a ler esta crônica por causa do título, cuidado: você está no grupo de risco.
(O príncipe Azim, de Brunei, no Oriente Médio, quer pagar US$ 10 milhões para ter Michael Jackson em sua festa de aniversário. Se fosse para Michael cantar, tudo bem - se eu tivesse US$ 10 milhões ressuscitaria Candeia, Noel e outros tantos -, mas é só para marcar presença. Como Michael, ao que tudo indica, está longe de ser gente bonita, Azim deve ser mesmo uma pessoa e tanto.)
Engana-se quem pensa que “gente bonita” é uma maneira de dissimular o interesse em “homens gostosos” ou “mulheres gostosas” presentes; de dissimular a perversão. Antes fosse, já que, além de mais sincera, gente pervertida é muito mais interessante que gente assexuada. Mas - que nada! - é desinteresse mesmo. Coisa de quem se tornou uma caricatura do próprio desejo, querendo ser bonito, querendo ter alguém bonito, querendo estar entre os bonitos, e esqueceu - ou nunca soube - para quê. Os formulários terão um dia quatro opções no item “Sexo”: masculino, feminino, pessoa, e gente – sendo “gente” o equivalente a “Nenhuma das respostas anteriores”.
Essa gente pulula em academias de ginástica, capas de revista, novelas de televisão, passarelas de moda, boates e megaeventos. O Rio de Janeiro, tido como cidade de gente bonita e sensual, cada vez mais fabrica - além de pessoas - gente bonita e assexuada. Em breve, será famosa como a grande enganação internacional, o que, por sua vez, seguramente inflacionará o mercado de putas. Uma puta custará quase um Michael Jackson. Estamos perdidos.


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