por C.A. - Segunda-Feira, 21 de Maio de 2007, às 11:46
Vi-me ontem parado diante do estabelecimento comercial onde ora reside a loja da estilista Isabela Capetto, rua Dias Ferreira, no Leblon. (E havia festa, suponho pela música pop, embora o clima fosse comportado, introspectivo, ou apenas chique talvez, o que, em caso positivo, que cousa!, não saberei distinguir dum ambiente fúnebre).
Lembrava-me então da livraria Dantes, qu´ali antes morara, sebo miúdo, sem grandes conteúdos, é verdade, mas ainda assim uma livraria como em breve saudade será, sem revistas importadas, sem jornais, sem cafés, sem discos, mas com o finado hábito, charme dos charmes, de tratar os livros por objetos comuns, cotidianos, em que se deve pegar, tocar, daí porque ficassem expostos rua, quais se numa feira-livre, livros usados, de preços sugeridos, sim, mas sempre negociáveis. (Lembrava-me também de Saulo, o vendedor, negro retinto, que me permitia levar volumes fiado, isso sem contar os outros tantos que, um pouco mais caros, ele escondia-reservava para mim).
Lembrava-me da Dantes e pensava sobretudo em como é triste uma livraria que chega ao fim – uma livraria que termina, mais uma, e que d´ela afinal só reste memória, esta que é tão-só adiamento. (“Não há futuro pior que aquele em que uma livraria se fecha”). [C.A.; Livraria Dantes, 21/03/2005].
Pensava se não incidiria maldição alguma, de preferência retumbante, indubitável, sobre o que quer qu´ali a sucedesse, indefinidamente, eternamente, no caso atual, quiçá a maldição do fracasso comercial, do bloqueio criativo, do mau-gosto numa coleção, tudo isso eu considerava, desejava?, até me ocorrer qu´assim jamais seria, jamais um castigo sob a forma de prejuízo, d´imaginação ausente, de feiúra absoluta, jamais uma maldição que negasse o valor do livro ele mesmo, jamais também um castigo evidente, e sobre isso tudo eu refletia ali, rua Dias Ferreira, diante daquela loja sofisticada, onde havia festa, supunha pela música pop, embora o clima fosse comportado, introspectivo, ou apenas chique talvez, o que, em caso positivo, não saberia distinguir dum ambiente fúnebre…


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