por C.A. - Segunda-Feira, 14 de Maio de 2007, às 11:50
Sei que é a tendência, o tal futuro!, que talvez seja mais barato, que decerto é prático – mas venho aqui protestar contra o que me parece a nova face modista do velho barulho de origem particular, este fetiche do brasileiro: o rádio de bolso, instrumento mais expressivo para o que somos, uns mal-educados; modelo mais exibicionista daquilo que o telefone-celular paradoxalmente simboliza, a solidão.
(Vivemos o tempo da urgência – falsa urgência: o tempo em que tudo quanto seja irrelevante não pode esperar).
Saio assim s ruas, alterno passos do monumental Maracanã (que é nosso!) ao privado dum bistrô luz de velas – mas não tardará: logo, não importa onde, estrilará um apito agudíssimo, com eco metálico, pi-pi!, a partir do quê, entrecortada de mais e mais pi-pis, estabelecer-se-á conversa, s vezes duradoura, minutos a fio, meu deus, cujo conteúdo será público, inevitavelmente público, necessariamente público. Será também desejavelmente público?
(Vivemos o tempo em que todo silêncio será castigado – e em que todos os que o prezem passarão por misteriosos, como se algo escondessem!, e não raro como autistas serão lidos). (O silêncio faz penar – o silêncio, quem diria, um incômodo)…
Do celular, esta onipresença, se pode sempre maldizer os tons mil, as mais infames musiquinhas por chamada, exceção para o aparelho do Sr. Manza, advogado da Casa, que se anuncia ao som do gol de Petkovic, o do tri, o maior gol da história – mas ainda assim, ainda que tocando-berrando aos acordes do Asa de Águia, preservado estará o conteúdo, a trama que se desenrolará a seguir, o motivo do telefonema, a troca de recados, de idéias, o engenho de combinações, de (in)confidências, de agressões, de traições, de paixões e os oráculos todos que regem o que é a dois.
No rádio, não – e sobretudo porque pessimamente usado, mal-educação, sempre ela, em riste: no rádio, a regra é exterior, impessoal, artificial, e toda palavra, feita ruído, será ouvida para além do destino. (É todavia bastante aceitável que se avente a hipótese de que este destino seja justamente os ouvidos alheios)…
De toda maneira, creio, não será apenas o gosto brasileiro por falar alto. Afinal, poder-se-ia conversar aos gritos no rádio, paciência, mas num diálogo breve, pontual, qual seja, não-comprometedor. O caso é que se grita e, em paralelo, ostenta-se, sem pressa alguma, sob volume de constranger a quilômetros de distância.
Deve haver – imagino – algo de status social na comunicação a dois (espécie em extinção) que se faz contudo para indiscriminada audiência. Era já assim com o telefone-celular, quando este era ainda exceção, tempos românticos, um tijolo fabuloso, e as gentes o faziam d´escada a um nível superior – e quanto mais tocasse, melhor, ora, pois que mais procurada a pessoa era, lógico. Este era o recado público, a mensagem – mas tão-só: restava ao menos o particular do dito não-ouvido…
O rádio, porém, a manter intacto este valor (!?), o de divulgar seu dono como sujeito requisitado, vai além, explora e recria o vulgar, desmembra a discrição, e do diálogo entre duas pessoas se saberá que uma está, por exemplo, no restaurante Gero, bebendo um Bordeaux 1981, e que a outra, tão-logo busque o Porsche na concessionária, seguirá para o aeroporto, última escala antes de Frankfurt – mas que ninguém se preocupe, pi-pi!: o rádio irá junto…
(Dizem que funciona até no paraíso).


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