por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 3 de Maio de 2007, às 13:10
Olhava para meu café requentado. Lembrava de quando tinha a família mesa de manhã, o cachorro correndo no jardim, margarina escorrendo no pão quentinho enquanto todos se abraçavam rindo e a música tocava ao fundo. Hoje todos têm problemas de saúde por consumo excessivo de gordura trans.
É sempre na hora de tirar o shampoo. A última gota caiu exatamente dentro do meu olho quando levantei a cabeça para ver o que aconteceu. Não ter lido o aviso sobre a limpeza da caixa d’água me custou sair de roupão e restos de espuma em direção ao chuveiro emprestado do meu chefe. Não temos um caso, a intimidade vem do fato de sermos vizinhos e os filhos dele me amarem já que conheço todos os personagens de Carros. As crianças sempre voltam choramingando da incursão ao meu mundo – “Ela ganhou o Playstation 3, pai! Me dá um?” A mãe dela precisa mantê-la ocupada, crianças, por ideologia mandou a filha Índia ao invés de Disney.
A desvantagem de ser uma pessoa criativa é que menos coisas acontecem com você na vida real. Em qualquer hora vaga (enquanto a fita rebobina, enquanto o moço enche o tanque, enquanto o microondas roda, etc.) você aproveita para imaginar situações, diálogos, momentos e, como já imaginou, eles não vão acontecer porque isso te tornaria uma vidente. É um saco. Daí não entenderem porque você é ansiosa e vive fazendo piadinhas. Se a mente estiver livre, entra a voz do narrador com trilha e tudo.
Eu não achava realmente que um dia fosse esbarrar com um galã, nos apaixonaríamos e revistas quems publicariam fotos minhas com óculos escuros enormes, roupas da moda e beijos apaixonados no calçadão. Mas denunciar um assalto imaginário na banca aniquilou qualquer possibilidade de aproximação desse status. Estava um clima estranho, as pessoas se entreolhavam cúmplices e faziam gestos contidos, evitavam mexer nas coisas, por Frei Galvão! A chance de ser assalto era muito maior do que ser só o Rodrigo Santoro comprando O Globo de domingo. Gente exagerada! Mas aí a policia já tinha chegado, eu já tinha gritado na rua, as pessoas já corriam desesperadas e eu vou ter que mudar de jornaleiro e símbolo sexual. Ok, ele não era meu símbolo sexual.
Eu estava abalada, a noite tinha sido péssima. O que me irritou mais não foi o fato do namorado ter dado uma lingerie da Verve de presente para ela, mas a constatação de que a vida sexual da minha avó anda mais ativa do que a minha. Eu ter descoberto isso em público no 82º aniversário dela deve ter contribuído para meu copo de gim se espatifar. A comemoração-surpresa tinha o Janot no som, e os amigos riam de se acabar cantando “você não gosta de mim, mas sua filha gosta” enquanto mexiam seus bracinhos semi-dobrados para cima.
Não há esperança para mim. Workshops de culinária tailandesa e a companhia constante de um labrador chocolate adestrado na Socila não me tornaram uma pessoa mais cool. O cachorro ronca e comeu minhas Havaianas. Se eu comprar uma scooter, ao invés de parecer descolada, vou render comentários no bairro sobre “o estabaco da Formiga Atômica”. Até da aula de surfe desisti. Calculei o tempo entre o resgate no meio das ondas e o depósito vexatório do afogado na areia: não dá para negociar com o salva-vidas uma troca de papéis de mentirinha nem convencê-lo a declarar seu óbito.
Estou fadada banalidade. Vidinha ordinária. Droga, o café esfriou.


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