por C.A. - Terca-Feira, 17 de Abril de 2007, às 11:51
Não me quero bancar de vidente – mas não é de hoje que grito cá contra a sociedade entre os contraventores do jogo do bicho e a prefeitura do Rio de Janeiro no carnaval das escolas de samba. (Cedo ou tarde, com boa-vontade, daria em confusão)…
A Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) é a legitimação oficial da bandidagem como grupo organizador do “maior espetáculo da terra”, do qual o município, irresponsavelmente, sobretudo nos mandatos do Sr. Cesar Maia, abriu mão de todo, isto representado hoje na figura da Cidade do Samba, erguida com dinheiro público e entregue de imediato ao controle exclusivo dos bicheiros, transformados assim em gestores modelo, embora impostos, sabido é, não paguem.
Em tempo: não acredito que o resultado do desfile das escolas de samba tenha sido fraudado. (De todo jeito, terá sido dinheiro jogado fora – pois que a Beija-Flor mereceu o título). A questão, porém, é outra: o inaceitável de tal possibilidade – a corrupção no resultado – ser sequer cogitada. E é por isso, escandalosamente por isso, que o prefeito-virtual Cesar Maia não pode agora, em hipótese alguma, posicionar-se como mero espectador do caso, aguardando “de fora” o desenrolar do inquérito e a solução das investigações policiais. Ele é responsável também. Na omissão, responsável. Na omissão, como jamais permitido a um governante. Tivesse a prefeitura, na gestão do carnaval das escolas de samba, participação proporcional aos recursos que investe – isto para além da ridícula presença do alcaide na avenida durante os desfiles –, e a denúncia de fraude no certame seria logo recebida como absurda ou, ao menos, como um bocado mais improvável.
Como, todavia, a prefeitura do Rio de Janeiro entregou de corpo inteiro a organização do carnaval para uma entidade comandada por tipos fora-da-lei, sem meias-palavras, uma quadrilha, estão sob risco e de credibilidade já enlameada (com reflexos turísticos, sim), muito além da validade pontual do desfile de 2007, os carnavais que passaram, bem como, nesta toada, os que virão – e lesados deverão se sentir todos: escolas que não vivem de recursos abandidados, empresas patrocinadoras, emissoras de rádio e tevê, a imprensa de modo geral, e cidadãos que compraram ingressos para uma disputa que, meses depois, aventa-se ficcional. (E bastava um pouco de responsabilidade pública)…
Qual bem nos lembra o Focca, tempos antes do carnaval já pululavam boatos d´alcova segundo os quais, estava decidido, rebaixado seria o Império Serrano. Sem entrar na questão estritamente carnavalesca, esta em que o Império de fato não desfilou bem, quando o que quer que seja é organizado por mafiosos cujos tentáculos abarcam até desembargadores federais, fica fácil imaginar um encontro esfumaçado em que chefes contraventores, numa mesa de mogno imensa, sob meia-luz, decidem o que se vai dar meses e meses adiante.
E é aí, retomo, que se amarra e aprofunda a responsabilidade da prefeitura: consideradas as somas momescas que o poder público injeta no carnaval, este simples exercício de imaginação, um acinte coisa pública, é inaceitável!
(E bastava um pouquinho de bom-senso)…
******
A imprensa carnavalesca e os sambistas de modo geral também têm responsabilidade na legitimação dos bicheiros. É raro – raríssimo – encontrar jornalistas que critiquem, mesmo que apenas no plano da administração, o trabalho da Liesa, transparente como a parede maciça diante da qual escrevo.
Dependentes de pautas, de informações em primeira-mão, de credenciais e de convites para eventos, condescendentes e não menos preguiçosos, tratam esses bandidos como parceiros e, é incrível, até como benfeitores do carnaval, de que na verdade se valem tão-só por lavanderia de dinheiro sujo.
Sobre a Liesa, assim, encontro na imprensa carnavalesca já uma discussão a propósito da sucessão do Sr. Ailton Guimarães, um preso!, quando o debate que importa é outro – a despeito de ser verdadeira ou não a denúncia, felizmente ensejado por ela: o possível fim da Liga, a dissolução de sua estrutura obscura, de falso profissionalismo, e a retomada integral do carnaval pelo poder público, se longe de exemplar, ressalve-se, baseado ao menos em instrumentos de fiscalização e controle legais e experimentados, de fundamentação democrática e espírito constitucional, como se deve sempre desejar.
******
A romantização do jogo do bicho, propagandeado, quase ingênuo, como “atividade informal beneficente”, e da figura do bicheiro, “o generoso patrono”, é outra estupidez típica do tal jeitinho brasileiro, um eufemismo para breves estelionatos.
Se decerto popular, se cativante, se realmente engenhoso, ao mesmo tempo ilegal – assim é o jogo do bicho.
Que se discuta a sua legalização, tudo bem. Não me oponho. Talvez seja mesmo a solução – não sei. Até lá, contudo, é contravenção, crime, e a conseqüência de sua atuação vai muito além da fezinha folclórica da empregada ou do porteiro, numa rede de contatos cuja extensão, a perder de vista, pode se relacionar até com o tráfico internacional de drogas. (Alguém dirá que não)?
Desta forma, quando um gênio como Paulinho da Viola, ou mesmo um respeitável Monarco, baita compositor, canta a saudade mítica do grande Natal da Portela, canta antes um bicheiro, um fora-da-lei, um marginal, um bandido, precursor disto que hoje se vê nas escolas de samba – e de quem se poderá dizer, por que não?, responsável por boa parte dos 21 títulos da azul-e-branco de Oswaldo Cruz.
Por que não?
******
Passa ano, vem ano, e eu experimento no carnaval aquele tipo de constrangimento tomado do outro, cuja cara-de-pau o impermeabiliza de qualquer bom-senso: Zeca Pagodinho, o grande sambista!, Boni, a velha cara da velha Globo, Julio Lopes, secretário estadual de Transportes, Rodrigo Maia, deputado federal e presidente do DEM, amigos e parentes do prefeito-virtual etc., tipos recorrentes do oba-oba momesco, todos a circular livremente pela avenida, abraçados a bandidos, felizes da vida ganha, sempre sob a lógica de privatizar os espaços públicos…
******
Espero que o Império Serrano não se valha desta situação lamentável para propor alguma sorte de virada de mesa. Será igualmente inadmissível – e do Império, expoente do samba, aguarda-se a dignidade dum retorno conquistado no chão, um desfile magistral!, como é de sua natureza, como versa sua tradição.
Imperiano de fé, como se sabe, não cansa. (Mas e o cidadão, cansar-se-á)?


deixe seu recado