por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 12 de Abril de 2007, às 13:14
Lembro de quando comecei a chutar minha mãe. Naquela época eu ainda não ponderava muito, era extremamente impulsiva. Se tivesse analisado melhor talvez decidisse que ela estava sendo legal, até que estava bom ali – quentinho, eu bem alimentada, uns afagos – mas teimei que estava apertado, que eu não cabia mais e quis sair daquela barriga. Foi uma dor! Daí peguei essa mania. Um dia eu não coube mais naquela relação, no outro não coube mais naquele emprego, minhas lágrimas já não couberam naquele lenço, minha gargalhada já não coube naquela sala, houve dias em que eu não coube naquela roupa! Foram os dias em que eu senti que em breve não caberia mais naquele mundo.
É sobre o sentido da vida. Quando muda a conjunção astrológica, o diretor do filme mexe na sua cena, quando chega a sua vez na fila. Quando você pára de esmurrar as paredes, desiste de culpar os outros, fecha a porta e se olha de cara limpa no espelho: “malandro, agora somos só nós dois, o que faremos?” Um pronunciamento! Atenção certezas, verdades, idéias, tenho uma coisa dura para dizer, nem se esforcem em serem fortes: mudei vocês. Aquela bússola que usávamos, joguei no armário junto com as outras. Eu seria sim uma traidora se continuasse aqui, seria uma grande mentirosa e acabaria ofendendo aqueles que verdadeiramente seguem contigo. Estou me desfazendo das minhas identidades e agora essa é a minha. Agora. Venho mentindo, não sou o que vocês pensavam e isso não quer dizer que nunca tenha sido, apenas não sou mais.
Nossos pais são mais imaturos do que nós, nossos príncipes encantados têm muitas características de sapos, nossa conta bancária não é tão polpuda, nosso apartamento não é como o da revista nem nossos amigos são perfeitos e prontos para o que der e vier 24 horas durante sete dias. Sim. Mas não é isso. Sou eu. Eu que sigo levando a vida que é o produto dessa equação, tirando o melhor que posso dela e fazendo ajustes. Somos nós. Nós que sempre nos esquecemos daquela dor causada pela idéia primária de não caber e acabamos por repeti-la. Viver é fácil de olhos fechados, para alguns não dá. E eu os trairia, trairia todos os que vez ou outra largam bússolas com norte errado por aí porque começaram, lá atrás, a não caber.
Vai ver temos defeito de fabricação – não encolhemos. Ou talvez no nosso chip tenha vindo outro comando, o de aprender a parar de buscar o sentido da vida e passar a valorizar o que dá sentido a ela. Quem te entenda. Quem te abrace. Quem te reflita. O que te reflita. O que te complete. O que te engrandeça. O quê?
É sobre o sentido da vida porque para nós que não cabemos só há um: para frente.


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