por João Paulo Duarte - Segunda-Feira, 9 de Abril de 2007, às 16:28
(“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”). [Álvaro de Campos; Tabacaria].
Recebi a foto. E ficou linda. Ela ficou linda, a Silvie. O sorriso estampado na tela do computador é emblema dum momento. Eu num pub em Saint-Germain-de-Prés. Silvie chegou, sentou-se e desabotoou o sobretudo. Três botões, e em poucos segundos apareceu a bata - cor-de-rosa, bem clara -, daquelas que têm o decote amarrado por uma cordinha que se entrelaça algumas vezes. As cordas estavam deliciosamente frouxas. Uma visão de Paris.
(“Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres…”). [Álvaro de Campos; Op. cit.].
Rodamos por Saint-Michel, rua após rua. De esquina em esquina. O sorriso impossível misturado com o frio que fechava o inverno na Europa. E como é apaixonante a pontinha do nariz rubra pelo frio! Ela é linda toda.
(”O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela…”). [Idem; ibidem].
Paris é uma cidade de piétons, não tenha dúvida. E é uma cidade para duplas. Para se andar em dupla. Bandos não se divertem em Paris. Caso consigam diversão, de certo não aproveitam da melhor forma. São tantos detalhes que não se pode dividir atenção e tempo com tantas pessoas ao mesmo tempo.
Paris é uma cidade de casais.
Silvie me convidou para conhecer um outro pub (e nessa primeira noite me levou para conhecer outros tantos). Esquina da Rue du Bac. Impressiona como ela conseguia silenciar o alvoroço dos torcedores que ainda bebiam após terem assistido a um jogo de futebol. Silvie conseguia tudo, eu até me esqueci que me faltavam palavras em francês, quase sempre. Naquela noite, não.
A saia preta, a meia-calça preta. Os cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo. E quando dobrava as pernas eu entendia que certas coisas só as roupas de frio podem proporcionar ao homem. Nós cariocas estamos acostumados s facilidades visuais. Desde cedo encaramos e conhecemos os corpos femininos nas praias, nas ruas. Especializamos-nos em conquistar, porque ver nunca foi mistério. No inverno de Paris
não é assim. Cada vez que Silvie se mexia, eu descobria algo novo. Me encantava, alucinava, esfuziava. E a boca, em situações como essa, se agiganta. As francesas aprendem, ainda pequenas, a serem lindas de boca. Elas não têm problema de
sincronia; rosto e corpo são simultâneos, orquestram. O que por aqui chamam de charme, pra mim é orquestração.
(“Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!”). [Idem; ibidem].
Nos dois dias que estive com Silvie foi como se todas as outras não importassem. Não lembrei de ninguém (comumente me lembro, de várias). E só me dei conta disso quando me despedi e acendi um cigarro. Logo após descer do carro, ainda colocando as luvas, pensei em voltar. Tentar descobrir mais. Muito além do que tinha vivido com ela numa sexta e num sábado no inverno em Paris.
(“E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.”) [Idem; ibidem].
Dias depois, quando ia pegar o metrô em Madri, mexi na jaqueta procurando bilhetes e achei um pedaço de papel amarelo escrito acho que com um lápis de olho: “Nous serons toujours Paris! Au revoir, S.”
Eu sei.


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