por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 23 de Marco de 2007, às 13:20
Nunca é demais repetir que quem reutiliza um tíquete na cantina só não é capaz de superfaturar uma obra pública por um único motivo: ainda não teve a oportunidade. Cada ladrão rouba o que está a seu alcance, embora muitos achem ladrão uma palavra forte demais para amigos e parentes cujo lucro não passa de um filé com queijo no árabe. Não importa. (Não a esta crônica). Roubar nem sempre é o pior. O cinismo, s vezes, é mais devastador. E ambos estão ao nosso lado.
Tido como a versão francesa de Fogo contra fogo, filme em que Robert De Niro e Al Pacino duelam em lados opostos da lei, 36 quai des orfèvres (no original) traz o duelo de dois dos maiores gênios da interpretação em atividade, jogando - teoricamente - no mesmo time - a polícia – contra um grupo de assaltantes a carros-fortes. Os personagens de Daniel Auteuil e Gérard Depardieu se utilizam do que a crítica cinematográfica cunhou de “métodos pouco ortodoxos”, a partir dos quais o roteiro colhe suas reviravoltas e expõe a fratura da relação principal.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais americanos (junto com Fogo contra fogo, coloque aí, sem cerimônia, Os infiltrados - ainda que originalmente chinês, diga-se), a relação entre seus protagonistas vai muito além do cool, do conflito de inteligência regado a troca de ironias que nos faz simpatizar com os dois lados, num entretenimento fácil do qual nada mais sobra senão um catártico “que maneiro…”. Com Vrinks (Auteuil) e Klein (Depardieu), as tiradas dão lugar a uma inquietação enlouquecedora, sublinhada pela impotência cada vez maior de Vrinks em reagir fragilidade do caráter – para não dizer cara-de-pau - de seu ex-amigo Klein.
Quem já conheceu, conviveu ou enfrentou um cínico (sobretudo “enfrentou”, porque “conhecer” e “conviver” todo mundo conhece e convive, mas só “reconhece” mesmo quem teve que enfrentar) verá em 36 um retrato preciso da incapacidade de retratação - desde seu despontar na rivalidade, na vaidade e no ciúme, até seus efeitos devastadores em quem destes era o involuntário causador. Assistir a Daniel Auteuil no papel de quem sente um menosprezo que não basta; de quem antes do recurso indiferença – quiçá o único possível - ainda precisa se auto-afirmar para não sofrer novas perdas; de quem fica entre o desejo de vingança – de matar mesmo - e a integridade de não se igualar a quem menospreza; é um tão raro quanto valioso aprendizado.
E, no fim, ainda se pode dizer: “que maneiro…”.


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