por C.A. - Quarta-Feira, 21 de Marco de 2007, às 11:56
Para Ana Maria
Meu pai, Rubens, era portelense. Ele e meu padrasto, sem se conhecerem, desfilavam na mesma ala, quem sabe lado-a-lado, como lado-a-lado cá estão – em mim.
Meu pai era botafoguense. Logo, não gostava de futebol. Era inteligente, porém, e nos amava sobretudo, daí que nos estimulasse, pelo silêncio, sem ferir assim a dignidade torcedora, ora, a que Flamengo fôssemos, meu irmão e eu. (Era um homem muito elegante – mas por vezes se traía numa discreta superstição, indisfarçável todavia, lembro-me, e era então, sem se dar conta, o maior dos botafoguenses)!
Meu padrasto, Luiz Paulo, vascaíno, levava-nos ao Maracanã, aos jogos do Flamengo, quando para tanto d´ajuda precisávamos e, embora dormisse os noventa minutos, nunca reclamou daqueles pesadelos rubro-negros. (Talvez porque intuísse que outros, piores e vices, viriam)…
Meu pai ganhou do pai dele, não sei quando, um cordão de ouro, grosso, mas d´espessura não-bicheira, e o usava ao pescoço sem dele ter jamais gostado, menos por feio que por atenções clamar. Este cordão, eu o carrego hoje – o único objeto que não me podem tirar, para o bem ou para o mal.
Um dia, faz três ou quatro anos, cheguei ao quarto de minha mãe e, diante de meu padrasto, pedi – eu quero o cordão do meu pai. Ela disse que não, que era perigoso, ostensivo – e logo estávamos a discutir, em seguida do quê, irritado, saí. Quando voltei, sem palavra deitar, o cordão era já meu. Senti na hora, como ainda hoje, que minha mãe havia cedido sob influência de meu padrasto. Senti que ele me tinha compreendido e, antes, compreendido o valor – o significado – de meu pedido, de meu desejo. É o que importa: o que se sente. É o que importa, sim, posto que talvez a coisa não se tenha dado assim, pois que talvez ele não se tenha manifestado – não interessa: a generosidade dele, real, diária, sutil, honesta, a generosidade dele me permite imaginar, sentir, ser.
É do pai que se aprende a amar. Eu tenho dois.


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