por C.A. - Segunda-Feira, 19 de Marco de 2007, às 11:58
Para o amigo B.T., o maior dos rubro-negros.
Eu estava no velho estádio da Gávea. Era uma tarde de quarta-feira, talvez quinta – e, prioridades já bem definidas, matava uma aula d´inglês. O ano? 1996. Jogavam então Flamengo e Olaria, partida de que não me lembro o placar, decerto largo, pois que só Romário, jamais me esquecerei, fez cinco gols.
(Cinco assistências do injustiçado Iranildo)…
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Naquele tempo, contando quinze, dezesseis anos, pouca coisa me importava mais que futebol. Havia já as moças, sim, mas nem elas me interessavam tanto quanto o Flamengo.
(E eu de fato fui um belo meia-esquerda, nada porém que justificasse o exagero daqueles que me chamavam de Gérson).
Entre 1995 e 96, estive em jogos disputados em Madureira, Bonsucesso, Bangu, Campo Grande, Olaria, Friburgo, Niterói – e até a Três Rios eu fui uma vez. Pensava então que, se ia a tais lugares mesmo com mobilidade tão limitada, ganharia o Brasil, o mundo!, acompanhando o Flamengo quando enfim dirigisse, quando tivesse meios etc.. O tempo passou, o estádio da Gávea foi desativado, tristemente desativado!, e eu hoje a me conformar só com os jogos no Maracanã.
Piorei como torcedor – ou terei apenas amadurecido, admitido outras prioridades, outras viagens, quiçá mais sérias, respeitáveis… (Respeitáveis, meu deus)!? Piorei: é sempre dorido o relaxar duma paixão.
(Ou dorido será apenas crescer)?
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O fim da carreira de Romário se aproxima, é inevitável, e eu cultivo imensa admiração pela forma sofrida, pública, insegura, como ele lida com o ponto-final e com a consciência do limite.
Até onde podemos nos adiar? (E, para tanto, teremos todos um milésimo gol)?
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Guardo até hoje os recortes de jornal enviados por minha mãe.
Eu estava na Inglaterra, na acanhada e geladíssima Bornemouth, quando da contratação do Baixinho, ele então craque do poderoso Barcelona, melhor jogador do mundo, fazia pouco tetracampeão com o escrete canarinho nos EUA: Romário vinha jogar no Flamengo e, muito além dos títulos tantos, que afinal não vieram, vinha para levantar a auto-estima do rubro-negro.
E nisto não terá falhado.
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Romário talvez tenha sido o jogador cuja carreira mais amiúde segui. Ele era o craque do Flamengo quando o Flamengo era eu – quando o Flamengo era aquilo que me inseria no mundo, a que dava sentido. Romário era o corpo de minha tristeza, destino de toda ira, quando as esperanças do centenário ruíram Maracanã adentro – e quando a tristeza era tão-só um campeonato de futebol perdido: a barrigada do Renato e, depois, o silêncio daquela Supercopa que nos escapou por um golzinho, numa noite em que o monumental estádio Mário Filho ficou pequeno para muito mais de cem mil pessoas…
Romário fez gols em todos esses jogos, como faria, dois anos mais tarde, na final da Copa do Brasil contra o Grêmio, também no Maracanã – também um título perdido.
Em todas essas ocasiões, Flamengo batido, agora vejo claramente!, eu buscava nele, no craque, no gênio, a diferença de ser rubro-negro, a diferença na mesmice, o futuro-orgulho meu na festa alheia – a força de continuar, de recomeçar, a pegada de sustentar a altivez sem a qual Flamengo não há.
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Romário ganhou os estaduais de 1996 e 99 no Flamengo – o primeiro, um título invicto. Foram porém as derrotas – tão-tão mais numerosas – que o fizeram grande do tamanho que é para mim: Romário no Flamengo foi meu sonho de moleque.
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O Flamengo de Romário me ensinou a perder.
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E não será assim mesmo a vida?
Quando me veio a alegria maior, concreta, real, eterna – o gol de Petkovic e o tri de 2001 –, Romário já não mais estava.
E não será mesmo assim a vida?
E serão, por isso, menores os sonhos?
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Eu sempre senti que Romário fosse Flamengo. Não é o que interessa – o que se sente?
Eu sempre senti também que Romário tivesse a perfeita noção do que seja jogar no Flamengo. (Ele ficou mais humilde depois – ou talvez não, antes indo jogar no Vasco).
Eu sempre senti que Romário tivesse a exata noção do que seja jogar no Flamengo, daí porque lá mais não esteja.
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Romário chegou ao gol de número 998.
(Eu dou fé a esses números, a esses gols, pois que todos marcados, redes balançadas, goleiros batidos – e não me importa se quase cem deles feitos como amador, nas categorias de base, infantil, mirim, juvenil etc.: não importa). (Quem já jogou bola sabe: gol é valor absoluto).
Romário diz que se sentiria honrado em marcar o milésimo contra o Flamengo, no próximo domingo, no Maracanã.
Eu estarei lá, como sempre.
Não sei, contudo, qual será a minha reação caso se dê mesmo então o gol mil – mas tenho certeza de que o Flamengo é grande, é generoso demais, para saber eternizar em suas redes, como sua também, a marca maior dum gênio que, aos 41 anos e obcecado pela conquista pessoal, compreendeu que jamais poderia atingi-la sob o manto rubro-negro.
Romário sempre soube que o Flamengo é a prioridade – o auge – na carreira dum jogador de futebol. Jamais o contrário. Para isto, existe o Vasco.


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