por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 15 de Marco de 2007, às 13:24
A preocupação começou quando recebi de uma amiga um texto da Fernanda Young. Falava sobre as possibilidades que deixamos escapar por vivermos em uma interminável agonia. Pessoas e oportunidades que perdemos porque teimamos com uma específica que na certa não vai vir - basicamente porque se tivesse que, já teria vindo.
Sempre pensei que a única semelhança entre a escritora e eu fosse nossa coincidente vocação para apresentar um programa de TV como o Irritando Fernanda Young, sendo que na minha versão apareceriam flanelinhas, machistas, mulheres que gritam, motoristas de táxi que desafiam a lei da física, esse casting. Mas o texto que fez a minha amiga lembrar de mim falava sobre ansiedade - algo totalmente aplicável minha pessoa e, ao que parece, Fernanda Young. Uhn… O problema maior é que ele foi escrito por uma Fernanda Young otimista, bem-humorada até. “Pessoas que somem não são confiáveis”, brincava. Brincava?
Não é dela, pensei, quantos Veríssimos invadem as caixas de mensagens por aí sem que o autor nunca tenha escrito nenhuma linha daquela bobagem? Mas e se for? Se a Fernanda Young estiver mais bem-humorada do que eu! “Caso seja necessário, para tirar de vez essa história da cabeça, mande você uma carta esculhambando e colocando um ponto final na questão”. Então entrei na farmácia para comprar Prozac.
Mentira. Escrevi a tal carta. Tais. Uma para o César Maia falando sobre transporte, outra para o Al Gore avisando que o aquecimento global está de férias no Rio, algumas para RHs e derivados alertando-os sobre o arrependimento irreversível que sentirão se continuarem me ignorando, outras para homens que deixei e me deixaram sobre assuntos que não acho educado publicar, uma mais extensa para o Lula. Não enviei nada, claro. Quase nada… Preferi dar um mergulho, o mar recuperaria meu astral.
Em pé na areia escaldante do Leblon, música alta, sal secando ao sol, um garotinho se aproxima de mim, típico personagem. Ele me oferece a cerveja que segura, eu faço que não com a cabeça, ele começa a mexer os lábios, eu tiro um fone do ouvido: Você não bebe? Não, sorriso amarelo de ponto final. Mas posso lhe conhicê? - me estende a mão - eu sou Rénan. Olhei ao redor - não tinha uma gangue por perto, não era para me distrair. Não tinham câmeras por perto, não era uma pegadinha. Há tanto tempo não ouvia alguém usar o pronome “lhe” que chacoalhei a mão de Renan e quase invejei aquele estufar de peito nordestino do conquistador neo-carioca. Como carioca-com-muitos-anos-de-praia, rapidinho recolhi minhas coisas e fui embora meditar em outro canto sobre a minha condição de pior que Fernanda Young.
Voltei para casa derretendo, pensando que até em avião os conversadores respeitam fones de música, agora nem controlar a ansiedade em paz é possível. E de repente ri da cara-de-pau do jaguncinho. Rénan podia achar que é numa dessas que se começa uma grande amizade, que assim nasce um romance, que não há melhor companhia para uma tarde na praia. Ele podia estar deprimido e resolveu chutar o balde, podia estar feliz da vida e quis compartilhar, podia estar numa terça-feira na praia sozinho tomando uma cerveja e resolveu puxar papo com a menina sozinha ao lado que ouvia música. Simples assim. Mas para alcançar essa simplicidade ele precisou de um desapego, de uma esperança, uma ingenuidade, uma segurança, uma tranqüilidade, uma determinação! Ou não, precisou de um gole, um mergulho e nada a perder.
A Fernanda Young otimista tem razão. Por causa dessa interminável agonia nem perdemos só pessoas e oportunidades, perdemos tempo. Desperdiçamos muita energia com uma obstinação s vezes desmedida. Uma coisa é correr atrás, a outra é rastejar, se esgoelar, achar que a vida não tem sentido sem aquilo. Tem. A vida só não tem sentido sem graça. E para ter graça, é preciso leveza de espírito. Para o resto dar-se-á um jeito.
A mesóclise foi para combinar com o lhe!


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