por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 8 de Marco de 2007, às 13:25
Foram três horas e meia de conversa.
A senha não funciona. Digitou certo, senhora? A senha não funciona. O programa veio pré-instalado, senhora? A senha não funciona. Enviou a nota fiscal e a licença OEM, senhora? A senha não funciona. Já tentou reinstalar o Windows, senhora? A senha não funciona. Pode enviar a máquina para a loja nos Estados Unidos, senhora? A senha não funciona. Já falou com o fabricante no chat de suporte, senhora? O computador travou. Tem certeza que comprou o sistema operacional e o pacote Office 2007, senhora? Nãããooo! Eu não tenho certeza! Eu preciso de um técnico de informática, de um advogado, um cozinheiro, um mestre de obras, um marido, um massagista, um pai rico, um personal trainer, um médico, um terapeuta, um guru, um DJ, um bar-man, um Lexotan. Não sei mais o que comprei! Não sei porque tive essa droga de idéia de ter um computador, essa droga de idéia de resolver as coisas, eu não posso! Não sei desbloquear o firewall, não sei em que filme aparece aquela frase, eu não sei se posso tomar o remédio da garganta junto com o da gripe, eu não sei limpar a orelha do cachorro, eu não sei se meu cliente deve expandir o negócio na Zona Norte, eu não sei fazer a bainha da calça, eu não sei porque ele não me liga, eu não sei porque não me contrataram naquela entrevista, eu não sei pregar o quadro na parede, eu não sei se fui mesmo convidada para a festa, eu não sei está na hora de trocar o filtro de ar do carro, eu não sei mais como fazer nada!
Se um computador vem sem manual, o que eu posso esperar das pessoas? Se um computador sai da fábrica embaladinho, lacrado, conferido, com selo de garantia e dá defeito, o que eu posso esperar das pessoas? Se um computador que iria facilitar a minha vida causa um ataque de pânico numa terça-feira de sol, pelo amor de Deus e todos os seus assistentes, o que eu posso esperar das pessoas? Pior: o que elas podem esperar de mim? Então já aviso - não esperem nada. Não vou apresentar o projeto genial que um espera, não vou ligar linda e loura para sairmos no fim de semana, não vou acordar de madrugada e dirigir até a casa da outra que, em crise, me espera. Não vou dar força, bronca, colo, solução, beijo, não vou dar conta. Se tivesse escolhido ser dondoca, seria mais fácil? Ou eu não daria conta da minha unha sempre vermelha, cabelo sempre escovado e cachorrinho cheiroso? Se fosse mãe e esposa, seria capaz de educar e amar sorrindo? Se fosse budista, decidiria no meio da meditação que aquilo ao redor podia ser de outra forma e começaria a reorganizar o templo? Se eu fosse normal delegaria as funções, pediria ajuda, gritaria antes de explodir, seria mais humilde nas minhas exigências? Se as outras pessoas não fossem egoístas, inferiores, auto-centradas, desatentas, incapazes e impotentes seriam normais? O normal é mais fácil do que isso aqui? Eu não espero mais nada de ninguém.
Isso aqui está muito difícil. Disseram por aí que nenhum homem é uma ilha, eu olho para todas essas pessoas sozinhas que vão pelas ruas e cantarolo - de onde elas vêm? Andam em bandos, falam alto nos bares, dançam no escuro, se esgoelam nas arquibancadas e quando fecham a porta do quarto no fim do dia tudo que têm são elas mesmas. Pior ainda, quando além delas mesmas, tem um estranho deitado no travesseiro ao lado. Doloroso como quando se vêem minúsculas, som distante, numa sala lotada de vozes e sombras e sorrisos e um embaralhamento de pensamentos desconexos sem resposta. Tantos bobos isolados lá no topo das montanhas, melhor se descessem. Não dão conta de si, não podem dar conta de mim. Vão todos ficando cada vez mais ilhados, paradisíacos e desertos. Você precisa de alguém? Ficaria mais fácil com uma ajudinha dos seus amigos? Também cantaram por aí que você pode aprender como ser com o tempo, e talvez realmente tudo que você precise esteja na letra da canção feita para ser entendida por todos os povos do planeta. Tudo que você precisa é de amor. All I need is.
Ok, e um Office 2007 para Windows.


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