por C.A. - Segunda-Feira, 5 de Marco de 2007, às 15:26
Não compreendo a propalada importância dum evento esportivo com a suposta grandeza do pan-americano que, contudo, não resulte em benefícios concretos para a cidade que o abriga. Lida-se, convém sempre registrar, com muito dinheiro público, muito!, donde se deve exigir retornos práticos sociedade pagadora de impostos, e um novo estádio, em local de péssimo acesso, sem melhorias no sistema de transportes de massa, é pouco – é pouquíssimo. (E sobre as maquiagens de Maracanã e Maracanãzinho, repito, não falo mais)…
O Rio de Janeiro cai aos pedaços, as ruas vão esburacadas de fazer corar um rali, o mobiliário urbano ameaça a saúde/segurança de quem o utiliza e, sem cerimônia alguma, uma fortuna de recursos públicos é investida em obras que não melhorarão a vida de quem habita esta cidade – mas que talvez a piorem, não se pode duvidar.
Lembro-me, por ocasião da campanha para este Rio-2007, lá-lá atrás, de dois compromissos públicos de justificar imediatamente o Pan do Brasil, erguidos então como bandeiras do futuro da cidade, conseqüências inadiáveis da magnitude do evento – e eu quase acreditei: a despoluição da Baía de Guanabara e a extensão do metrô até a Barra da Tijuca. Como se sabe e o tempo informa, ficaram na promessa… Era evidente que ficariam. Sempre ficaram. O curioso é que, embora o orçamento do pan-americano tenha mais que dobrado ao longo dos anos, foram logo eles, os dois principais estandartes de convencimento público da premência dos jogos para o Rio, os primeiros a tombar quando foi preciso cortar gastos…
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Do ponto de vista essencialmente esportivo, para os que dizem, esperançosos, que os jogos pan-americanos serão decisivos para o desenvolvimento do esporte olímpico no Brasil, sem duvidar, oponho apenas que, com migalhas desses gastos públicos, poderia ser extraordinariamente ampliada a rede de vilas olímpicas da cidade, dedicadas, com sucesso, educação infantil por meio do esporte – porque, não custa lembrar, se nem todos podem ser atletas de ponta, podem, sim, ser cidadãos.
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O estádio olímpico João Havelange, o Engenhão, ainda não está pronto – e longe disso está, como venho escrevendo faz quase ano. As obras estão atrasadas, os funcionários ensaiam greves… O cenário está montado.
Anotem então o que acontecerá: abril chegará e será publicamente anunciada a necessidade de obras de emergência para a conclusão do estádio, sendo assim em seguida contratadas empreiteiras adicionais, sem licitação, tudo perfeitamente de acordo com a lei, e de imediato pronto o estádio estará, dentro de tempo quase inafiançável, as sombras e sombreiros qual flechas esquecidos – e todos felizes da vida, como versa a tradição.
Sensacional.
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Outra quantidade fabulosa de recursos públicos está prevista para investimentos em segurança pública a partir dos jogos pan-americanos. São equipamentos d´última geração, tão eficazes como de operação difícil – mas que ainda não chegaram.
Chegarão. É óbvio. Só não sei se a tempo de serem minimamente treinados aqueles que vão utilizá-los pelas ruas do balneário…
E seja o que deus quiser, ora.
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Há ainda o argumento turístico a sustentar a importância inquestionável deste pan-americano para o Rio de Janeiro.
Já escrevi e repito: a cidade precisa de anos de investimento perene em infra-estrutura urbana antes de se propagandear “turística”.
Não há sequer vocação – evidente – para o turismo que sobreviva se aos que cá habitam não são oferecidas condições mínimas de segurança.
O pan-americano talvez servisse de pontapé inicial para uma virada – mas o tempo passou e a oportunidade está perdida. Já era.
Defender o contrário é desonestidade. Mas quem sabe na olimpíada…
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O Império Serrano tem sessenta dias para deixar a Cidade do Samba – mas ainda não encontrou para onde ir… É o que informa o excelente blogue “Roda de samba” (http://oglobo.globo.com/blogs/rodadesamba/), do jornalista Leonardo Bruno.
Trata-se de conseqüência típica da sociedade inadmissível entre esta prefeitura virtual e a bandidagem da Liesa: ergue-se o espetáculo da Cidade do Samba, com monumentais dimensões e instalações perfeitas para as escolas lá assentadas, ao mesmo tempo em que se aprofunda o fosso entre estas e as que desfilam nos grupos de acesso. A lógica é a seguinte – e grosseira: não se manteve na elite, vagabundo, que se dane então. E a danação tem cara, corpo: barracões acanhados, desprovidos de mínima segurança e sujeitos a toda sorte de assaltos – roubos, sabotagens, incêndios etc.
Daí que seja, também, a cada ano mais difícil que uma escola vinda de baixo, por melhor carnaval que faça, permaneça na elite. Enquanto as demais estão habituadas estrutura e instaladas há anos na Cidade do Samba, a agremiação promovida penará com meses de mudança e adaptação.
Para além dos desníveis de investimento e poder político entre, por exemplo, Mangueira e São Clemente, some-se pelo menos quatro meses em que a primeira se dedicará ao planejamento de seu carnaval e a segunda a se instalar e, com sorte, conhecer as possibilidades técnicas do novo barracão.
Não tenho dúvida de que o Império se ajeitará, grande que é, e logo-logo ao Grupo Especial voltará.
O problema é que nem todas as escolas são o Império Serrano…
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Eu não sei distinguir o prefeito César Maia do presidente da Liesa, Capitão Guimarães. São iguais. Absolutamente iguais. Mas suponho que nenhum dos dois reclamará de minha incapacidade – mormente o alcaide. Seria deselegante para a sociedade que firmaram no carnaval e que, comprometendo a prefeitura, legalizou o poder público da contravenção.
Sensacional.
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O escritor, virtualmente conhecido por C.A., flamenguista, imperiano e apaixonado, precisaria escrever sobre o amor e portanto a saudade – mas, muito bem-humorado, desenvolve também por escrito a arte de se enganar dedicando-se a irrelevâncias seriíssimas como esporte e carnaval.
Sensacional.


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