por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Fevereiro de 2007, às 15:44
O Império caiu – mas não vou cá discorrer sobre o que me pareceu injusto.
Estou triste, menos pelo rebaixamento em si, que é do jogo e do esquema, mas sobretudo pelo que talvez a queda sinalize para o carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro, isto de que vão já raros – e a cada ano menores – os espaços para um desfile feito no chão, de chão!, tradicional como faz resistir a coroa, ela, gloriosa, ela que pede passagem ao jongo da Serrinha, s baianas da Cidade Alta, ala dos Cabelos-Brancos, bateria dos agogôs, reco-recos e pratos, tradições já lidas como desnecessárias, até mesmo aqui nesta Casa, como supérfluas, ora, assim, ano após ano, facilmente combatidas pela lógica bandida que se veste de Liga e modernidade, e oprimidas pelo vigor ostensivo da contravenção, sem a qual o destino oficial será sempre o tombo.
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Dane-se o destino oficial. O Império Serrano está de pé. O Império não cai. Não tem vocação d´olhar pra baixo.
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É da ordem da imbecilidade o equívoco de se reduzir para doze o número de escolas no Grupo Especial. O tempo nos mostrará…
Já li declarações do Sr. Laíla, competente diretor de carnaval da Beija-Flor, a favor de apenas dez agremiações na elite do carnaval. É lamentável. Laíla, cria do grande Salgueiro, apoiado hoje no frondoso e intocável poder econômico da bicharada de Nilópolis, defende uma redução no número de escolas que tende a resultar amanhã em redução muito maior e inominável: chegará o dia, não falta muito, em que desfilarão no sambódromo dez Acadêmicos do Grande Rio.
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A Beija-Flor, extraordinária escola de samba, mereceu o título. Tinha, disparado, o melhor samba e fez, como de hábito, um desfile belíssimo.
Ponto final.
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Muito mais grave do que ter de deixar a Cidade do Samba é, para o Império Serrano, ver sob risco o trabalho sério de uma diretoria honesta.
Ao contrário do vexatório rebaixamento de 1997, quando a escola era vilipendiada por quem a comandava e se vendia por migalhas ao engodo dum Beto Carrero qualquer, a queda de 2007, conseqüência, sim, d´alguns vários equívocos na preparação do carnaval, não pode entretanto travar o caminho de revalorização das coisas do Império, trajetória que, ocupando a quadra de feijoadas, shows e eventos diários, atraindo para ela o povo de Madureira, da Serrinha, da Congonha, da Tamarineira, de São José, do Magno, de Vaz Lobo, devolveu escola o orgulho de vestir verde-e-branco.
Que assim sigamos adiante. É o que espero e exijo.
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Estou ansioso por retornar quadra. Que venha logo a próxima feijoada.
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A 10 de abril de 2006 publiquei nesta Casa um texto intitulado Carta aberta ao Império Serrano, que encaminhara no dia anterior a todos os diretores da escola.
Nele, sugeria que, na seqüência dos memoráveis desfiles de 2004 e 2006, e por ocasião do aniversário de sessenta anos do Império, a escola se homenageasse cantando qualquer um dos seus, Silas de Oliveira, Mano Décio, Mestre Fuleiro, Elói Antero Dias, Beto Sem-Braço, Roberto Ribeiro, ou todos eles juntos… Dediquei-me especialmente Dona Ivone Lara porque viva estava e está, brilhante como sempre – e que fabuloso enredo nos daria, afinal!
Recebi então da vice-presidente cultural, Rachel Valença, gentil e breve resposta, agradecendo pela sugestão e afirmando que a proposta seria considerada pela escola. Pouco depois, na esteira de problemática troca de carnavalescos, o Império anunciava, junto com o nome do jovem e inexperiente Jack Vasconcelos, o enredo “Ser diferente é normal”. Desconfiei. E não sozinho. Resolvi no entanto esperar pela sinopse. Era tudo muito arriscado e quanto mais nas mãos dum carnavalesco, embora talentoso, mormente cru.
Senti d´imediato, no texto explicativo do enredo, quase mal-escrito, a falta de liga que casasse o aniversário da escola, de referência obrigatória, com um desfile que passasse por Frida Kahlo, Einstein, Victor Hugo, Aleijadinho etc., mesmo tendo de fato o Império origem na diferença, na superação, nascendo dum racha de caráter democrático, rompendo com a tradição de autoritarismo das grandes escolas para logo no primeiro ano, como nos três seguintes, ganhar avassaladoramente o carnaval.
(Li também na sinopse a dificuldade de lá se extrair elementos para um samba-enredo excepcional)…
A raiz dos problemas do Império Serrano no desfile de 2007, tenho certeza agora, sempre esteve na escolha do enredo e em certa soberba d´apostar numa solução genial engenhada por um artista novato, como se o surgimento dum Fernando Pinto ou dum Arlindo Rodrigues fosse a coisa mais natural do mundo. Não é. Não foi. Não deu.
Quem viu o primeiro setor da escola, desde a coroa, linda-linda, no abre-alas, até a segunda alegoria, o deslumbrante “Trem de luxo”, quando o Império falava de si e de onde em tantos grandes momento se poderia desdobrar, logo imaginou o quão surpreendente e emocionante teria sido o desfile se assim seguisse, compensando a falta de recursos financeiros com o patrimônio afetivo a que só Império, Portela, Mangueira e Salgueiro podem recorrer. Mas não.
Ali, para além de alegorias quebradas e carros apagados, para além das falhas inegáveis d´evolução, ali, na opção de se afastar do que é, ali, ao tentar se igualar no faraônico do que não possui, ali, enfraquecendo-se, o Império Serrano se permitiu saqueado pelo esquema abandidado da Liesa.
Que se aprenda a lição. O Império Serrano só terá chances se for a cada vez mais Império Serrano.
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O samba com que a escola saiu em 2007 nunca foi o meu favorito. Estive em quase todas as eliminatórias e estive na final em que por ele se decidiu. Nunca foi o meu favorito, repito, mas nunca o achei ruim. Ao contrário. Com o tempo, conhecendo-o, desdobrando-o, passei mesmo a cantá-lo com tesão e a dele gostar, imaginando que servisse bem ao desfile, curto e simples, o que não me impede de o ter sempre considerado muito distante da tradição de grandes sambas-enredo do Império – e principalmente por um motivo: é mal-acabado.
Versos como “No primeiro destaque/E na comissão/São novidades verde-e-branco/Meu irmão” são de grosseria inadmissível e demonstram a negligência do que é feito nas coxas.
Como nunca ouvi um samba ruim do Sr. Arlindo Cruz e como o julgo incapaz de fazê-lo, repito aqui a impressão que sempre tive e que dividi, numa eliminatória lá na quadra, com o Pim, profundo conhecedor da obra do Arlindo: ele nunca tocou neste samba. Apenas o assinou.
De resto, agora que nos escapa o glamour da elite, é hora dos imperianos aparecerem. A hora é esta!
Do Sr. Arlindo Cruz, portanto, ídolo meu, outra coisa não espero que vê-lo disputando com garra o samba-enredo com que desfilaremos no Grupo de Acesso em 2008 – e que sejam dele os versos.
Caso contrário, que vá de vez puxar trio-elétrico com o ministro em Salvador.
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Discordo do amigo Marcelo Moutinho, notável imperiano, da cepa dos que não se cansam de acreditar!, quando propõe e defende a criação duma nova liga, alternativa ao engodo da Liesa.
Penso ainda que o Império tem muito a acrescentar entre as escolas poderosas – e que o nosso papel é marcar presença e opção, herança e tradição, mostrar e reforçar que o carnaval, qu´a alma do carnaval, resiste e se impõe, que pode incomodar e atrair, sempre com garra, por meio de nossos instrumentos de fazer diferença, com sambas bonitos e bateria candente, de modo a que ao imperiano não importe exatamente ganhar o carnaval, mas antes sentir que não haverá jamais um campeão antes de seu desfile.
É esse o espírito. É este o futuro. Seja na Sapucaí. Seja na Intendente Magalhães. Seja onde for, para onde formos. Estaremos lá. Sempre.
Estaremos lá.
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A lembrança que me fica do carnaval de 2007 é da quarta-feira de cinzas, logo depois de confirmado o rebaixamento oficial, e os amigos que comigo desfilaram, todos reunidos, a cantar o samba como se vencedores fôssemos.
E quem dirá que não?
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“Avante, imperianos/A luz de deus iluminou a Serrinha/Viemos cantar, sambar/Mostrar, provar a nossa tradição/Pouca coisa não vai nos jogar no chão”…


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