por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 15 de Fevereiro de 2007, às 13:29
Juveninho foi ao cinema sozinho, porque sabia que ia chorar do início ao fim. E não pega bem chorar do início ao fim em filme do Stallone. Mas Juveninho chorou do início ao fim. Sorte dele que ninguém viu. Ao término do trailer, já tinha comido a pipoca toda, o que facilitou um pouco o choro. Pipoca e lágrima não combinam muito, ele diz. A não ser que a pipoca seja doce.
De antemão, Juveninho sentiu falta de Thalia Shire, que só aparece em imagens de arquivo. Há quem diga que Thalia Shire nunca fez nada de importante além de Rocky e O poderoso chefão. Gente idiota. Para Juveninho, quem fez Rocky e O poderoso chefão não precisa fazer mais nada na vida. Ação de graças, presente de Natal, cartão de aniversário, churrasco para os sogros – nada. Nem ameaçar pagar a conta no primeiro encontro. Quando alguém se julga muito importante, Juveninho pergunta: você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah, então cala a boca.
Agora, o filho do Rocky não lida muito bem com o peso de ser filho do Rocky. Esse negócio de ser filho de estrela, crê Juveninho, pode ter duas conseqüências ruins: a primeira, o sujeito culpar o genitor por não conseguir nada por si só (como no filme); a segunda, o sujeito achar que é o próprio genitor, a própria estrela. Em ambos os casos, vive-se à sombra do dito-cujo, numa eterna insegurança disfarçada. Sabendo-se uma futura estrela, Juveninho já sabe o que fazer com seus filhos. Se forem do primeiro caso, vai decorar o discurso impecável de Rocky Balboa. (Para isso existem dvd e YouTube, ele diz. Para decorar as falas boas.) Se forem do segundo, perguntará: ô moleque, você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah…
As tartarugas do Rocky podem tirar onda; seus filhos, não. Dizem que tartarugas vivem muito tempo, de modo que Juveninho ficou pensando se aquelas eram as mesmas do primeiro filme. Aquelas para as quais Rocky disse, machucado: “Isso tudo é culpa de vocês. Se dançassem e cantassem, eu não estaria lutando”. Algo assim. Juveninho esqueceu todas as frases decoradas dos filmes anteriores - com exceção de “Adrian! Adrian! Adrian!” - depois da naticélebre frase do último, quando Rocky aponta o próprio peito e justifica ao velho Paulie seu retorno ao ringue: “There are some things in the basement”. Não há mais o que explicar, não é? Há algumas coisas no porão. Simples. Preciso. Multiuso. Rocky. Agora, quando vai à praia segunda-feira, Juveninho repete: “There are some things in the basement”.
Tudo que se faz de “errado” na vida, pensa Juveninho, também se acumula no porão. A diferença está entre os que deixam tudo lá e os que fazem daquilo alguma coisa. De modo que se revolta, Juveninho, quando alguém critica Stallone por sua carreira desastrosa. Ele fez Rocky. Escreveu, atuou e dirigiu. É como o Clint Eastwood: melhor passar 180 anos fazendo porcarias de caubói para um dia dirigir Sobre meninos e lobos e Menina de ouro do que ser sempre eficiente, como a Meryl Streep, e não ter uma obra-prima. É o que pensa Juveninho sobre suas experiências amorosas: delas sairá o best-seller A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Cada um com seu porão, ele diz. E que não venham encher o dele.
Ao sair do cinema, meio emocionado, meio triste com o fim de Rocky, Juveninho atinou que, no porão de Stallone, ainda tem material para Rambo IV. Por sorte, pensou ele, Stallone não fez O poderoso chefão.


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