por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Fevereiro de 2007, às 13:30
Juveninho, depois de anos (mentira, meses), conseguiu ir à praia numa segunda-feira. Não estava mesmo dando certo esse negócio de malhar, jogar bola, foder e trabalhar – o corpo tem limites -, de modo que Juveninho cortou o trabalho. Nessa vida, ele diz, é preciso saber renunciar. Agora, as moças do Coqueirão não lhe saem da cabeça. São elas a maior prova de que é possível ser linda e tatuada ao mesmo tempo.
Qual será o nome daquela de nádegas enxutas e canga amarela com bolinha rosa? Onde terá se machucado a loirinha que manca com esparadrapo no dedão? Como ela ousa não lhe apresentar sua amiga morena, tão morenamente graciosa que Juveninho nem sequer dela guardou outra identificação senão sua morenice? Onde morará aquela, quase mulata, de biquíni florido, que se contorce toda para dar de chilena na altinha? (E, aliás: falará ela “altinha” ou “altinho”? “Adedanha” ou “adedonha”? “Altinho”, crê Juveninho, é da mesma família de “adedonha”. Ser-lhe-ia, portanto, um alívio se ela falasse “altinha”.)
Há qualquer coisa na praia de segunda-feira que deixa as moças mais lindas que o normal. Talvez porque neste dia, mais do que nunca, ir à praia é uma forma de indiferença - de protesto, quiçá. Dane-se o mundo. Vivam as cadeiras, as barracas, os esparadrapos nos dedões. Nossas escolhas, reflete Juveninho, muitas vezes são também formas de protesto. “Pequena Miss Sunshine”, por exemplo, ele torce para que ganhe o Oscar, simplesmente porque se trata de um filme genialmente simples. Admira, Juveninho, a simplicidade, o minimalismo na arte, o tudo dito com tão pouco, ao contrário dos excessos estéticos de sempre. Mas adorou “Os infiltrados” (ah, lembra ele, a cena do silêncio ao telefone: que aula de roteiro!).
Talvez, de fato, as escolhas feitas mais como forma de protesto do que por gosto pessoal não se sustentem por muito tempo. Sabe essas moças que namoram um dinamarquês? Não um dinamarquês qualquer, estamos falando de um dinamarquês que mora na Dinamarca. Sabe? Juveninho não tem dúvidas: elas não escolheram – protestaram. É como se dissessem assim: “Estão vendo, pobres e infelizes compatriotas? Vocês, com suas peles bronzeadas, disponibilidades integrais e ingressos do Maracanã, não são suficientes para mim. Meu ideal está em outro planeta. Passem bem”. Não adianta, diz Juveninho aos amigos: é o preço que a gente paga por ser concreto demais, humano demais, real demais para elas. Ao que os amigos suspeitam: Juveninho foi trocado por um dinamarquês.
Não tendo jamais se apaixonado por gringa alguma, Juveninho – sempre honesto com os sentimentos alheios – só as utiliza como pesquisa de campo para seu primeiro romance: A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Pesquisa na qual pretende incluir as moças do Coqueirão. Para não correr riscos de interromper precocemente sua obra, já até decidiu: deixará a morena por último.


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