por C.A. - Terca-Feira, 30 de Janeiro de 2007, às 16:01
Rimbaud terá sido talvez o maior dos poetas – mas não está em verso algum o que nele mais pode fascinar e atrair: o fugitivo.
O fugitivo de dia após dia – e a cada dia mais. A cada noite – mais! (À noite: a tristeza amantíssima da noite)… O fugitivo eterno – porque também se pode (se deve?) de si fugir. (E não será esta a mais comum das fugas – a interna)? (E quanto da fuga se esconderá sempre em engano – em enganar-se, adiar-se)? (E o escritor, este fingido, quanto de seu cinismo será fuga – quanto)? (Mas de quê, meu deus, de quem fugirá)?
O fugitivo completo e complexo: aquele que se faz alternar entre o físico e o mental, entre os passos (territórios) e os pensamentos (aventuras), de Charleville para Paris, da débil saúde do corpo para o vigor maldito dos versos, da medíocre província s comunas da capital, do rosto infantil s letras de corrupções inauditas, de Paris para a África, da glória futura ao contrabando dos passados, da boemia vadia (o absinto!) ao negócio das armas e das peles (humanas?), do domínio terrível das palavras para o desconhecido temível da noite.
Em suma: Rimbaud.
Em 1880, aos 25 anos, sem jamais outro poema escrever, ele viajou para a África oriental – o Mar Vermelho por norte e a costa abrasiva (desolada) do Iêmen, esquerda, por vista. Desembarcou em Steamer Point, no porto árabe de Aden, então protetorado britânico, entreposto para os que seguiam Índia, início e partida para os onze anos seguintes, anos de Egito e Etiópia, anos de anonimato, anos também os últimos.
Gosto de imaginar que Rimbaud jamais voltou França, apesar de ter morrido em Marselha, em 1891, bem pouco depois de regressar. Gosto de o imaginar porque então já não mais fugia…
Intuiria o poeta a brevidade da vida – e por isso então a pressa de ser muitos, sempre outros, ou ao menos neles se crer? Ou tão-só acreditaria que as fugas, quanto mais e mais, mais rápido o fim antecipariam? (E não seriam todas pressas, afinal)? Mas: desejaria a morte o poeta? Duvido. Seria a morte uma fuga – a derradeira fuga – para Rimbaud? Não… Nunca houve entre as fugas do poeta espaço para a morte. Seria muito pouco.
Rimbaud foi a Marselha apenas para morrer – mas já não existia. Rimbaud era um fugitivo – e a fuga é dos vivos.
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Que se prefira ler a biografia de Roberto Carlos, paciência. Eu leio a de Rimbaud.
Há uma ótima na praça, Rimbaud na África, de Charles Nicholl, cá pessimamente editada pela Nova Fronteira. O texto, contudo, é excelente.
Rimbaud, a propósito, não processou o autor.


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