por C.A. - Quarta-Feira, 17 de Janeiro de 2007, às 16:02
Dos Buarque de Holanda, com licença, eu gosto mesmo é da Cristina – a irmã do Chico. E escrevo isso porque venho de ouvir, quase ano depois, “Prato e faca”, disco dela, de 1976, um de meus favoritos, triste como deve ser toda obra que reúna sambas de Manacéa, Mijinha, Heitor dos Prazeres, Alberto Lonato etc. – triste e lindo como sói a se dar com os da Portela.
Cristina, que sempre foi apenas Cristina, assim breve como breve é sua voz, mulher de feiúra irretocável e sem retoques, talvez a definição ela mesma da discrição, madrinha de ninguém, é das personagens mais importantes da história do samba – e decerto que o samba um outro seria não fosse Cristina.
Hoje está na moda – e faz bom marketing – a cantora que pesquisa, que vai s origens, que busca, mergulha… Cristina, alardeless, já isso fazia na década de 1970, Beth Carvalho o fez na virada pros oitenta – e nisto, portanto, novidade é tão-só o uso pop-comercial, extremamente cool, que de tal garimpo musical se faz agora. Cristina, por sua vez, a gravar horas e horas e horas de sambas em Oswaldo Cruz e em outros subúrbios da Central, foi além: de pesquisadora, fez-se fonte. (E não Monte).
Cristina talvez seja, sem querer, a criadora, na prática, dum conceito que agora se deu a chamar, inclusive com chancela oficial, de patrimônio imaterial, este segundo o qual nem só a história concreta, monumentos, casas etc., deve e precisa ser preservada, restaurada, mas também aquela que não se pode ver e tampouco tocar – não menos importante por isso e talvez por isso mesmo ainda sob risco maior.
Parte essencial da memória do samba hoje memória é por causa de Cristina.
Faz pouco escrevi que curta é a voz dela, cantora de não muitos recursos – o que não importa. Não me lembro de melancolia inteira outra que não o canto de Cristina… Poucos terão tão-bem interpretado os sambas de terreiro da Portela e raras vozes com eles se terão melhor entendido.
Mérito mais um – e fundamental – preciso destacar, quanto mais nesses tempos de samplers, fernandasabreu e maledicências outras: sempre como poucos, Cristina compreendeu o compositor (valorizando-o qual artista), mormente o de samba, e assim jamais d´outra forma cantou uma música senão como a ouvira de seu criador. (Beth Carvalho, a maior cantora de todos os tempos, também – registre-se).
Lamento que Cristina hoje grave tão pouco e de hábito sob participação especial aqui e acolá. É mais um silêncio de gritar a lástima que a desonestidade e a estupidez chamam de produção cultural brasileira.


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