por C.A. - Segunda-Feira, 15 de Janeiro de 2007, às 16:04
Carlinhos Verdadi-Chic é personagem dos domingos, de todos os domingos, sobre sua bicicleta – um triciclo, na verdade – a ir-e-vir, lentamente, pela ciclovia do Leblon.
(O dia faz feio, cinza, e assim lhe dá um refresco – que ele no entanto trocaria pelo sol de ferir a negra pele: Carlinhos é dos encontros e não o será sem as gentes, bem sabe ele).
Gosto de observá-lo. O triciclo, do qual não se o pode dissociar, é um engenhoso amontoado de velharias – uma caixa de som, um cd-player e uma bateria de carro – que resulta contudo em música. Carlinhos, se enfim o apresento, é cantor e compositor, sambista, embora seu chapéu mais esteja pro caubói que pro bamba, ali assim a se desfilar, fazendo-se ouvir, na cata simples de vender uns seus discos, três por quinze, que destaca serem inéditos, e isto com orgulho, lá onde deixa escapar a confiança na questão do tempo, questão de tempo, o futuro inevitável: cedo ou tarde aparecerá uma gravadora e tudo-tudo se encaixará.
(Carlinhos Verdadi-Chic, personagem dos domingos, é também todo dia)…
De longe, a escutá-lo, e sem ainda o ver, sem saber que se aproximava, sem distinguir o exagero de teclados ou as letras apoucadas, confesso, nele – na voz dele – algo de Roberto Ribeiro senti, e sentado sombra me peguei de repente a aguardar pelo R.R., distraindo-me na esperança (a poesia da espera) do impossível, saudade inteira e pura, quando então me veio a realidade, Carlinhos, já bem perto, a pedalar sôfrego, um senhor, triste não fosse a música, quase-triste, de corpo minguado qual minguada a melodia, tão fraco, curvado e curvando-se, e eu, diante da miudeza incontornável, a me perguntar d´onde viria aquela voz potente, meu deus, mais potente que afinada, a bem da verdade, de todo jeito surpreendente, vigorosa, milagrosa para um corpo de se desmontar num peteleco – d´onde?
Mas em seguida, já me havia cruzado uns tantos metros, Carlinhos Verdadi-Chic foi afinal ele mesmo, isto que para todos é destino inescapável, ser-se, definitivamente ele mesmo, presente!, presente e só, presente d´improvável amanhã, amanhã sem mais, decerto sem depois, urgente e insolúvel, futuro que não dobrará esquina (e que não logrará gravadora), a despeito de intacta restar a dignidade dos crentes: ali, ele mesmo, repetidamente ele mesmo na música que de súbito engasgou e engasgada pelo calçadão se insistiu, segundos, logo minutos, o tempo do fracasso e o fracasso por reticências, Carlinhos a pelejar contra os botões do aparelho, luta a se quedar vã, o fracasso então por ponto-final, e ele a arrancar, o extremo e o silêncio!, com força, quiçá raiva, talvez apenas resignação, o cabo da bateria, calando-se, sumindo-se, e sempre a pedalar, já de novo ao longe, já de todo triste…


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