por C.A. - Quarta-Feira, 2 de Augosto de 2006, às 20:21
Lembro-me de um colega brilhante, mestre em Letras, que não gostava do samba da Jovelina e mesmo o desprezava, “um sambinha” – crítico contumaz do que sempre me pareceu extraordinário na obra dela: o predomínio da oralidade num modo de cantar único.
Cobrava ele como fundamental na música popular – e com ênfase no samba – o que talvez fosse tão-só natural na literatura de Flaubert, a quem estudava na época: rigor formal, domínio absoluto do idioma, respeito estrito ao significado de um termo etc.. Na obra de Jovelina entretanto – e não só na dela – tudo devia servir ao samba e às características estruturais, internas, dele, sobretudo no partido-alto, e daí que de hábito fossem deslocada a acentuação das palavras e alterado o ritmo convencional de pronúncia delas, acelerado às vezes, encurtado em outras.
(A bem da verdade, pelas descabidas exigências literárias de meu colega para a música popular, resta difícil encontrar entre os grandes compositores de samba um que as pudesse satisfazer, e talvez só Luís Carlos da Vila, uma exceção, criador marcado, nas palavras do escritor Marcelo Moutinho, de “lirismo preciso e tessitura formal rigorosa”). (Não encontro outro).
Jovelina Pérola Negra se criou na tradição oral e outra coisa não fez que alimentá-la – e felizmente.
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Não faço aqui por favor nenhuma defesa da ignorância: Jovelina teria sido quiçá a maior cantora do mundo caso tivesse estudado canto e talvez estivesse ainda viva se, por estudo, pelo menos no da escola, aquele básico – o que se diz hoje “fundamental” – tivesse se demorado um pouco mais.
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Tenho orgulho em anunciar: era Jovelina imperiana, pastora da escola, no lendário botequim da qual, ao lado de Roberto Ribeiro e Jorginho do Império, costumava segurar no verso o samba até o sol raiar.
Presença assídua nos pagodes – e em outros exageros também – da Serrinha, e isso desde os tempos em que ganhava a vida como empregada doméstica, foi baiana do Império Serrano e integrante da respeitada ala da Cidade Alta, e não são poucos os que se lembram dela, já famosa, a desfilar pela escola.
(Jovelina Faria Belfort nasceu em 1944, em Botafogo, e morreu em 1998, em Jacarepaguá, de enfarte).
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Jovelina era fera, leitor. E nos deixou sete discos – alguns deles monumentais. O primeiro, “Pérola Negra”, de 1986, é perfeito, o melhor dela, a começar pela capa, linda, completamente tomada pelo seu rosto negro, de perfil, com um pano branco prendendo os cabelos e o olhar fixado longe, realçado ainda pela iluminação precisa.
O disco, relançado já em cedê, traz canções de Serginho Meriti, de Wilson Moreira e Nei Lopes, de Mauro Diniz e Ratinho, e de Acyr Marques, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço entre outros craques, e também de Marquinho Pagodeiro e Zeca Sereno, dupla pouquíssimo conhecida, responsável todavia pelo samba de que mais gosto no disco, o partido-alto “Pagode no Serrado”, que traz o delicioso refrão “Olará, cadê Clementina de Jesus/Ah, Jesus, cadê Dona Ivone Lara?”
Dos já citados Mauro Diniz e Ratinho (Alcino Corrêa), consta o até hoje lembrado “O dia se zangou”:
“Em virtude do tempo hoje não há futebol,
Veio uma chuva de vento, e levou pra bem longe o sol.
O que se vai fazer à tarde sem fazer?
Numa noite tão fria”?
“E eu, esperei lua cheia!
E eu, esperei lua cheia”!
“Quem pensou em passar o final de semana
Deitado na areia de Copacabana também se enganou, é.
Quem pensou no pagode do ´Fala quem Pode`
Já viu que não pode, ficou na saudade, o tempo fechou,
Bem cedo anuviou, o céu escureceu,
O dia se zangou, então choveu, choveu,
Temporal baixou e a cidade se alagou,
Temporal baixou e a cidade se alagou”.
Nos trabalhos seguintes de Jovelina, igualmente relançados em cedê, pela ordem “Luz do repente” (1987), “Sorriso aberto” (88) “Amigos chegados” (89), “Sangue bom” (91), “Vou na fé” (93) e “Samba guerreiro” (96), bons todos a despeito da progressiva irregularidade e apesar de um ou outro escorregão no repertório, como na ocasião em que investiu num tal forrogode, o aspecto recorrente é a qualidade da percussão afiada, de hábito com arranjos dignos, e com momentos soberbos quando se aprofunda no uso de elementos do que se pode chamar som rural, deslocando-se entre o calango e o jongo.
Se de fato irregulares, estão curiosamente espalhados por esses discos os grandes sucessos da cantora – “Luz do repente” e “Banho de felicidade” por exemplo, e entre eles o clássico “Sorriso aberto”, do falecido Guará, um samba onipresente no entanto aos poucos dissociado de Jovelina:
“É,
Foi ruim à beça,
Mas pensei depressa
Numa solução para a depressão,
Fui ao violão,
Fiz alguns acordes,
Mas pela desordem no meu coração,
Não foi mole não,
Quase que sofri desilusão”.
”Tristeza foi assim se aproveitando
Pra tentar se aproximar,
Ai de mim,
Se não fosse o pandeiro, o ganzá e o tamborim,
Pra ajudar a marcar, o tamborim”.
”Logo eu, com meu sorriso aberto,
O paraíso perto, pra vida melhorar,
Malandro desse tipo
Que balança mais não cai,
De qualquer jeito vai
Ficar bem mais legal,
Pra nivelar a vida em alto astral”
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Num questionável mapeamento do canto feminino na música popular brasileira, só ela se alinharia na estirpe de Clementina de Jesus. Mas é bom registrar: consideradas as referências, Dona Ivone entre elas, Jovelina tinha um seu estilo, único, um jeito de cantar de boca solta, um estilo particular e atraente, parecido aliás com o de Almir Guineto, cansativo para alguns, mas exagerado mesmo, bruto às vezes, abreviando as palavras, criando-lhes novas tonalidades, experimentando-lhes novos sons, embolando-as de acordo com as necessidades de seu modo peculiar de dividir o canto.
Nas intervenções faladas, num ou noutro comentário nas brechas das canções, evidencia-se o cotidiano da malandragem, a experiência da malandragem, essa malandragem tipicamente sambística, de quem sabe exatamente o que está fazendo e o faz com intimidade – o samba como centro e as características do samba como regra.
Jovelina foi uma cantora do corpo, uma cantora do preenchimento de espaço: sua voz, sua presença magnética, tudo isso era fortalecido pela cadência ancestral dos gestos, pelo uso dos meneios de braço, pela recriação nas ancas da dança candente.
Poucos usaram tão bem o movimento do corpo como ela.
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Nos anos 80, no contexto revolucionário dos pagodes de fundo de quintal a partir das quartas-feiras na quadra do bloco Cacique de Ramos, Jovelina Pérola Negra, bem como Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, ao conquistar terreno na tal indústria fonográfica, então de súbito interessada pelo samba que dali brotava incessante, desempenhou papel decisivo como oportunidade de gravação comercial para inúmeros compositores talentosos que surgiam motivados pela explosão criativa dos pagodes suburbanos e que não mais encontravam abrigo nas escolas de samba, já longe de ser o que outrara foram, espaços de reunião festiva dos sambistas e portanto terreiros de criação musical espontânea.
Jovelina, também compositora de mão cheia, autora do clássico “Bagaço da Laranja” (com Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho), era acessível e transitava entre os criadores com interesse. Era curiosa, sobretudo. Freqüentava os pagodes – todos. E garimpava mesmo, “cavucava” com vigor. Era admirada pelos compositores porque interpretava a música respeitando a forma como a ouvira do criador – e este é um valor essencial, muito peculiar, entre os sambistas.
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Cantava muito bem o partido-alto, sendo essa a sua maior contribuição – o canto do partido-alto. Contribuição, aliás, de sua geração, essa mesma que se encontrou no Cacique, responsável pela revalorização, mesmo que de maneira estilizada, da modalidade, então quase abandonada, dando continuidade ao resgate iniciado por Marinho da Vila nos anos 60.
Jovelina era grande partideira, e era assim tratada pelos bambas da pesada. A sua força de movimentos, a sua presença corporal, essa afirmação física e vocal é, sem dúvida, fruto do convívio no ambiente do partido-alto. E isso a fez singular: uma grande cantora também brilhante na prática do improviso, capaz de transportar essa experiência para a interpretação – e inclusive em estúdio.
Embora houvesse, no Cacique de Ramos, a predominância de um partido-alto menos rigoroso, que permitia a participação de todos os sambistas, mesmo daqueles menos habilidosos no repente, os relatos da época dão conta de que, quando o bicho pegava de fato, e costumava pegar, quando na roda só ficavam craques da linhagem de Baiano, Deni, Nelson Cebola, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Arlindo Cruz, sempre se abria espaço reverente para os versos de Jovelina Pérola Negra.
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Jovelina se encaixava exata entre os sambistas de sua geração, notadamente os geniais Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Almir Guineto – e isto para o bem e para o mal.


Quarta-Feira, 2 de Augosto de 2006, às 23:25
tribuneiros achei a matéria legal,mas ,como sou um dos autores da música “o dia se zangou” peço liçença para fazer uma pequena correção a respeito da letra . A LETRA CERTA É: EM VIRTUDE DO TEMPO HOJE NÃO HÁ FUTEBOL/VEIO UMA CHUVA DE VENTO/E LEVOU PRA BEM LONGE O SOL/O QUE SE VAI FAZER À TARDE SEM LAZER/ UMA NOITE TÃO FEIA/E EU QUE ESPEREI LUA CHEIA/BIS 2ªPARTE/ QUEM PENSOU EM PASSAR O FINAL DE SEMANA DEITADO NA AREIA DE COPACABANA TAMBÉM SE ENGANOU/ E´QUEM PENSOU NO PAGODE DO PARA QUEM PODE/JÁ VIU QUE NÃO PODE /FICOU NA SAUDADE O TEMPO FECHOU/BEM CEDO ANUVIOU O CÉU ESCURECEU/O DIA SE ZANGOU ENTÃO CHUVEU CHUVEU/TEMPORAL BAIXOU E A CIDADE SE ALAGOU/BIS
Quarta-Feira, 2 de Augosto de 2006, às 13:05
O grande Alcino Corrêa - o Ratinho -, que honra! (A Casa é sua).
Registro apenas que tirei a letra de ouvido, direto da versão da Jovelina.
Assim que puder, porém, faço o reparo.
Abraço tribuneiro!