por C.A. - Quarta-Feira, 26 de Julho de 2006, às 20:18
Almir Guineto é um sambista completo, como se diz – fruto mais visível de um fundamental reduto sambístico da cidade, o morro do Salgueiro, de bambas referenciais como Anescar, Noel Rosa de Oliveira, Gracia, Antenor Gargalhada e Geraldo Babão entre tantos outros, criadores todavia jamais valorizados como gracejaria o merecimento, não obstante compositores de canções até hoje lembradas nos pagodes da cidade. É aqui então que reaparece o gênio do sambista completo, pois se vão de fato quase esquecidos os supracitados autores, deve-se muito a Guineto que sejam conhecidos ao menos os sambas deles, os sambas de terreiro do Salgueiro.
(A propósito: está num disco de Almir Guineto – “O suburbano”, de 1981 – a gravação de partido-alto de que mais gosto, “Sinhá mandaçaia”, parceria com Luvercy Ernesto, em que versa de maneira espetacular com Geraldo Babão).
A relação de Almir Guineto com os Acadêmicos do Salgueiro foi muito intensa um dia, lá atrás – embora dela hoje não reste muito a não ser a memória e o belo samba “Abençalgueiro”, com Nei Lopes, outro salgueirense afastado da escola:
“Foi lá que eu nasci e me batizei,
Lá aprendi, me diplomei Salgueiro.
Foi lá que eu nasci e me batizei,
Lá aprendi, me diplomei Salgueiro”.
“Na fé do meu padrinho São Sebastião,
Qe cura minha alma e põe meu corpo são,
Pego a viola, que alegria,
E me faço rei nesta folia, noite e dia”.
“Abençalgueiro,
Deus te abençoe,
És incomparável, me perdoe”.
“Lá na subida da minha vida,
Um belo dia um novo sol raiou,
Branco e vermelho, jogo de espelhos,
Onde minha poesia se deslumbrou.
Academia, que me arrepia,
Meu primeiro verso, meu primeiro amor
Academia, que me arrepia,
Meu primeiro verso, meu primeiro amor”
”Foi lá que eu nasci e lá se encerra
O bem maior que Deus botou na terra”.
Talvez o último exemplar orgânico do malandro sambista, Almir Guineto (Almir de Souza Serra) vem de linhagem nobre na raça do samba: filho de Iraci Serra, respeitado violão dos tempos do Calça-Larga, e de Dona Nair, a afamada Dona Fia, irmão de Chiquinho, do grupo Originais do Samba, e de Louro, o lendário mestre de bateria dos Acadêmicos do Salgueiro – para quem aliás compôs, com Diogo e Almir Baixinho, o irreverente samba “Gari padrão”:
“Louro,
Segundo eu soube,
Tu foste eleito o gari padrão
Lá da Comlurb”.
“Ganhaste pasta,
Ganhaste talco e sabonete,
Louco vai dar sorte no Catete”.
“Mano Louro,
Nêgo cheio de vaidade,
Sempre com a sua vassoura,
Limpando a nossa cidade”.
Cantarolando,
Todo dia vai à luta.
Trabalha na Praça Mauá,
Varre até a Tijuca”.
Como o irmão Louro, Guineto foi também gari – profissão que teve de largar por conta duma paralisia parcial no braço esquerdo.
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Nos anos oitenta, impulsionado pela força dos pagodes em fundos de quintal, do qual foi pilar inquestionável, convém ressaltar, nenhum sambista teve mais destaque que Almir Guineto – nenhum. São dessa época os seus melhores discos, discos de carreira (e não os engodos dos últimos tempos), consistentes, imprescindíveis – o já citado “O suburbano”, “A chave do perdão”, “Sorriso novo”, “Almir Guineto” e “Perfume de champanhe” sobretudo –, tomados todos de uma vitalidade que muito bem representava o som irradiado a partir das quartas-feiras no Cacique de Ramos, cuja base revolucionária era a inovação instrumental, o preenchimento dos espaços, a inquietude da mão no couro, a partir da adaptação do tantã, da criação do repique-de-mão – e do renascimento do banjo no samba, legado maior de Guineto.
Com relevante utilização nos Oito Batutas de Pixinguinha, mas ainda com o braço longo, o banjo, típico do country americano, teria também circulado pelo Rio nos anos trinta, provavelmente já com algumas modificações, nas mãos do misterioso Moleque Diabo, um virtuose das cordas. Nos início dos anos setenta, reapareceria no Salgueiro, já com o braço de cavaquinho, muito mal tocado por um tal Mazinho, tio de Guineto e por meio de quem teria ele se aproximado do instrumento. Com liberdade para experimentar, na mesma lógica de exclusão e desinteresse comercial que permitiria, poucos anos depois, o desenvolvimento conjunto do som revolucionário dos fundos de quintal, pôde aprimorar o seu estilo de executar o banjo, estilo que se tornaria escola e enfim fixaria o instrumento, o banjo percussivo, quase um tamborim, destinado a explodir incansável no encontro medido com o ambiente criativo das rodas de samba de então.
É isto: o Almir Guineto músico precisa ser exaltado. Vindo de consistente formação familiar de percussionista (toca bem vários instrumentos) e tendo acompanhado por quase dez anos Os Originais do Samba (entre as décadas de 1960 e 70) com um violão que Beth Carvalho compara ao de Baden Powel, a escolha pelo banjo não é difícil de explicar. Extremamente talentoso e pretendendo ser ouvido, Guineto certamente se incomodava com o sumiço de seu violão no auge dos pagodes, muitas vezes abafado pelo conjunto dos demais instrumentos. O banjo resolvia o problema – e ainda com uma vantagem sobre o cavaquinho: o seu som mais alto prescindia de amplificadores, cabendo em qualquer roda de samba, em qualquer lugar, sendo essa simplicidade também um dos segredos de sua rápida multiplicação pelo país.
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Embora já tivesse uma carreira profissional como músico, o Almir Guineto compositor se encaixa perfeitamente na geração de sambistas que se reuniu no Cacique de Ramos, ainda que dele se possa encontrar canções gravadas aqui e acolá nos anos setenta.
O Guineto compositor acima de tudo, com o banjo sob o braço, este se consolidou mesmo no Cacique, então já na década de oitenta, cultivando a tradição do partido-alto, modalidade naturalmente praticada no Salgueiro da meninice, onde também se dançava o jongo, influência rural assídua na sua obra, mas também transitando com intimidade pelas várias outras modalidades do samba, criando mesmo uma grife de canções românticas para o gênero, cafonas às vezes, inclusive com um viés minimalista, como nas músicas “Mãos”, “Pés”, “Olhos” e “Lábios” – inteiramente dedicadas aos detalhes do corpo, raridades no imenso percurso do samba.
Entre seus seletos parceiros – que vão de Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra a Beto Sem-Braço, Nei Lopes e sua própria mãe, Dona Fia, no samba “Saco cheio” –, o mais antigo e mais freqüente é Luvercy Ernesto, pouco conhecido e entretanto muito talentoso, co-autor (com Luiz Carlos), do samba do Guineto de que mais gosto, “É, pois é”, gravado por Beth Carvalho no insuperável disco “Na fonte”:
“É, pois é, nem o galo cantou
E três vezes você me traiu, iludiu, fugiu
E ainda levou os sonhos que guardei
De amor, levou.”
“Ora, vem agora pedindo pra voltar,
Chegou fora de hora pra chorar,
Me falou do passado,
Que penou um bocado,
Encontrou a maior lição
No suor de uma solidão”.
“Ora, aqui mora quem já lhe esqueceu,
A verdade é que agora eu sou mais eu,
E o que mais hoje eu ligo é viver bem comigo,
E por isso eu lhe digo não,
Vá curtir sua solidão”.
Almir Guineto é um daqueles criadores, como Monarco, Nelson Cavaquinho e Luís Carlos da Vila, de quem se pode identificar a autoria de uma canção no bastar de uns poucos segundos de audição.
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Uma curiosidade sobre o samba “Saco cheio”, citado acima, aquele que diz no refrão “Tudo que se faz na terra/Se coloca Deus no meio/Deus já deve estar de saco cheio”. A gravação desta música, hoje mais atual que nunca, valeu a Almir Guineto uma baita grita do Arcebisbo do Rio de então, Dom Eugênio Salles.
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Curiosamente, “Caxambu”, “Mel na boca”, “Conselho”, “Jibóia” e “Insensato destino”, os maiores sucessos comerciais de Almir Guineto, nenhum desses sambas foi composto por ele, nenhum, mas trazem assim a marca do intérprete excepcional, triunfos do Guineto cantor – o grande cantor –, conhecido desde os tempos da primeira formação do Fundo de Quintal, com sua voz de quarta dose, de língua solta, com amplitude fabulosa, valente, a voz partideira, imprevisivelmente partideira, a voz impura, traçada também de interferências, com uma rouquidão ancestral, mas uma voz magnífica sempre, madura, inconfundível, carregada de surpreendentes erres e ésses, uma voz sem herdeiros enfim, e que permanece e permanecerá – a despeito da vida desregrada que leva.
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Muito se fala dos exageros da vida pessoal de Almir Guineto – mas sempre à boca pequena. Diz-se que ele jamais superou a saída do morro – o sucesso súbito. No que não acredito e que me parece mais um exercício de preconceito racista. Conta-se entretanto que, morando num excelente apartamento em Copacabana após ganhar bastante dinheiro com o estouro comercial de seus primeiros discos – imóvel que perderia em seguida para uma esposa inescrupulosa –, teria montado um quarto em cuja porta lia-se a placa “favela” e no interior do qual se encontrava a reprodução exata dum barraco. E nisto acredito porque me foi relatado por alguém que lá esteve algumas vezes.
Diz-se também que Guineto foi fundo nas drogas – como aliás vários de seus mais famosos parceiros dos tempos de Cacique. Sobre o Salgueiro, fala-se que teve certa vez de deixar o morro corrido por conta de mudanças no comando do cume, da “trasação” – e seria esta a razão de ter ele se mudado para São Paulo. A este respeito, em entrevista já publicada nesta Casa, disse-me o cenógrafo Fernando Pamplona, ex-carnavalesco da escola: “O Guineto era um bandido. Talentoso, mas bandido. Ficou uma porrada de anos sem vir ao Rio. Tinha de se esconder pra ajudar na bateria da escola”. Não creio que o sambista tenha um dia chegado sequer próximo de ser bandido. Mas me parece evidente que esteve bem perto da bandidagem – e que está aí uma das explicações para o declínio incontornável de sua carreira a partir de meados dos anos oitenta.
Um dia perguntei ao Nei Lopes sobre os problemas do Guineto, drogas, mulheres etc., e ele a me cortar imediato respondeu a resposta com que fico por fim - a torcer para que tenhamos Almir Guineto entre nós por muitos e muitos anos ainda: “O problema do grande sambista, Andreazza, é espiritual”.


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