por C.A. - Segunda-Feira, 17 de Julho de 2006, às 20:18
Um dos riscos da febre politicamente correta é a cegueira da ignorância humana, o auge endêmico da incapacidade de se observar um ato humano sob uma perspectiva humana, a estupidez ela mesma portanto, e tudo quanto se anuncia por evolução da civilização, todos esses passos assombrosos da tecnologia, da ciência, tudo me parece ameaçado de imediato pela idiotia crescente dos que aí estão nas alcovas, os cretinos da racionalidade incondicional, os escondidos juízes definitivos da ruína alheia, os covardes certinhos, os vendidos corretinhos, os árbitros do erro total, sem nuances, sem solução, camaleões sem jogo de cintura na ode tola ao bom-mocismo tipo nike, camuflados eles, os inimigos do imponderável, do literário, os enojados do improviso, camuflados eles sempre à espreita – e nunca foram tão numerosos – dos equívocos, das falhas, dos fracassos, à espreita da reação humana, da simples reação humana, para então negá-la, vilipendiá-la, apontá-la como inaceitável, descabida, desumana, meu deus!, a reação humana como desumana, e haverá golpe maior?, eles, logo eles que jamais reagem a não ser quando se podem lançar pelas costas, como agora, nas brechas dum desvio miúdo, duma falha insignificante se considerada as possibilidades de reconstrução humana, eles, por trás, covardes, a boca aguando, aos gritos de que arruinado está o que erra, destruída está a vida, a carreira, a obra, o legado por exemplo de Zidane.
(É canalhice tudo o que agora se diz e escreve de Zidane). (Ele errou, foi feio, muito feio, lamentável – mas pontual, breve, e sem conseqüências outras que não para si). (E que se pese a irrelevância do futebol, do esporte, e quanto mais se medido o tanto-tanto que se destrói sem recomeço por aí). (Eles, os oportunistas inimigos da ponderação, eles se lançam a confundir grandezas e é o perigo)… (É canalhice tudo o que agora se diz e escreve de Zidade também porque é preciso considerar o tempo, a reflexão e a cicatriz, e o tempo lhe dará talvez um milhão de chances de se redimir, e não para comigo ou com a população francesa ou com o diabo, não, nada disso, mas para consigo e para com os seus). (É o que importa). (É o que importa e é pessoal). (É o que importa e é interno – felizmente interno: se como o homem mais observado do universo tombou Zidane, todavia como homem, simplesmente como homem, sem complementos, como tal reerguer-se-á Zidane). (Sem dúvida).
Passados também um milhão de anos ou um milhão de chances, não haverá quem se lembre de Materazzi, de Buffon ou mesmo do tetracampeonato da Itália – mas de Zidane, ah leitor!, de Zidane alguém se lembrará e será assim: poucos cumpriram com tamanho gênio o destino que lhes coube.
Zidane foi o maior futebolista que vi jogar e me parece hoje muito necessário – urgente – que tenha deixado ele o campo antes do fim do mais feio jogo de futebol da história do esporte. Zidane, leitor, foi expulso do mais feio jogo de futebol da história do esporte – e nada poderá ser mais honroso.


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