por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Junho de 2006, às 20:08
Uma das maiores tolices do esporte contemporâneo é o politicamente correto fair-play. Ao menos do modo como se vai conduzido – obrigatório e programado como que entre robôs: uma tolice! Uma gentileza bonita – mas sobretudo opcional – transformada todavia em amarra moral capaz de, se descumprida, fazer odiada uma nação inteira ou, meu deus, um simples futebolista, um ser humano… É patético e é assim: um jogador se machuca, a bola é posta de lado para seu atendimento médico e, em seguida, devolvida a quem teve a generosidade de dela abrir mão. Tudo muito bonito e até justo – friamente justo e quanto mais cá de fora, do frescor dos salões. Tudo muito bonito – mas que não pode ser compulsório. Não pode ser jamais incondicional – sob o mui perigoso risco de se perder o valor soberano da reação humana.
Que seja o fair-play uma possibilidade de triunfo da ponderação do atleta – dum ser humano, registre-se uma vez mais. Uma possibilidade de desapego e grandeza – mas sempre uma possibilidade. Que possa o atleta exercer livremente o exame das alternativas, das prioridades – e a ele caberá então decidir o que melhor lhe convém. Em outras palavras – enfim: que o mundo não o odeie por talvez fraquejar e que a fraqueza não o determine amaldiçoado sem solução e sem caráter. (Breve intervenção do clichê: a vida não é assim).
São curtos instantes para avaliar os possíveis movimentos e aquilo que dele se espera – mas que não nos esqueçamos: o atleta está a disputar uma copa do mundo, precisa de um gol para quiçá continuar na competição e se vê de súbito obrigado – eticamente obrigado – a se livrar da bola, aquela a que deveria se apegar muitas vezes como que à vida, em razão de uma polidez civilíssima mas que, é justo considerar, talvez lhe pareça irrelevante aos 36 minutos do segundo tempo de uma oitava-de-final de campeonato mundial.
Não sei sinceramente como procederia em tal situação, embora d´aqui educado me agrade imaginar que devolveria generoso a bola – e sob aplausos infinitos. Não importa. Prefiro pensar que ao futuro do esporte apaixonado e apaixonante interessa muito mais a possibilidade de fraqueza numa decisão humana que a certeza da magnitude compulsória.


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